quinta-feira, 11 de maio de 2017




Nos anos 2005-2009 o movimento mainstream do emo explodiu dentro do cenário da música norte-americana  trazendo à tona bandas de som pesado, na maioria das vezes pop-punk com letras de alto teor emocional. Dentre essas bandas, uma se destacou por ter como vocalista uma garota jovem de cabelos coloridos. Rapidamente o que poderia ser apenas uma curiosidade provocada pelo machismo no meio musical, principalmente no segmento do pop-punk, tornou-se um grande sucesso comercial. Começava o sucesso da Paramore. 
Dentre altos e baixos, discussões internas, separações e hits emplacados, o grupo lançou quatro álbuns de sucesso, dentre os quais, o Paramore (2013) conseguiu alcançar o êxito de ganhar um Grammy de melhor música de rock por "Ain't fun" e já mostrava musicalmente um parcial distanciamento do som que fez da banda conhecida. 

Após mais alguns desentendimentos e um quase rompimento total da banda devido a uma crise interna causada pela saída nada amigável do baixista da banda Jeremy Davis, Paramore ressurge das cinzas com uma nova formação, agora com a volta do Zac Farro, membro e co-fundador da banda, trazendo um novo álbum lançado mundialmente hoje, o "After Laughter".

Mesmo para quem escutou o "Paramore" (2013), "After Laughter" causa estranhamento. Enquanto que no álbum auto-intitulado percebemos um momento de transição da banda, momento este em que o pop é mais evidenciado, é em "After Laughter" que a banda abraça o universo pop de vez, deixando de forma quase abrupta o pop-punk que um dia os caracterizou. 

"After Laughter" é, antes de tudo, um álbum que mora nos contrastes. A começar pelo título, que em tradução livre seria "Depois da risada", o álbum se propõe a questionar sobre o que acontece em nosso rosto quando paramos de rir. O que acontece quando nos damos conta que os tempos bons já se foram?



Enquanto que sonoramente há uma aparente alegria causada pelos elementos de funk, pop e indie 80's na maioria das músicas, as letras evidenciam tristeza, ceticismo e desesperança quanto aos relacionamentos e o mundo, influenciados diretamente da depressão que Hayley Williams, vocalista e principal compositora, luta contra. 

"Hard times" abre o disco alegremente com uma sonoridade funk-pop 80's, apesar de contar um aviso de toda a lírica do disco: "crescemos e estamos diante de obstáculos difíceis, o que fazer a não ser aceitar a dor e vivê-la?".
"Rose colored-boy" talvez seja uma das que mais incomodaram as pessoas pela total desconexão sonora com o legado da banda, porque o que ouvimos logo nos segundos iniciais soa quase como alguma canção da Cindy Lauper, o que, particularmente eu adorei (apesar de relutar no começo, admito.). A letra aborda alguém cansado de ser otimista, mesmo que admitindo que gostaria muito de voltar a acreditar num mundo bom. 
"Told you so" seguindo a linha musical das demais: linhas de baixo de funk em evidência e pequenos arranjos de guitarras com reverb, temos a interpretação nas partes altas que podem causar saudades das explosões de raiva em hits como "Ignorance", por exemplo.
"Forgiveness" é uma das grandes canções do disco, na minha opinião. Abordando a dificuldade de perdoar e tendo consciência dessa dificuldade (provavelmente inspirado na confusão que causou a saída de Jeremy, que era um dos melhores amigos de Williams, inclusive), a canção traz uma espécie de balada pop com elementos que causam balanceamento por sintetizadores e guitarras com efeitos reverb (que são características de bandas como The Smiths e The Cure). 
Logo a seguir vem outra grande canção do disco, inclusive preferida de muita gente, "Fake Happy". A canção inicia dando impressão de ser uma balada lenta, mas volta ao pop-rock e pop oitocentista, com elementos (principalmente no baixo) de funk-pop. A letra aborda a facilidade de fingir estar feliz e sorrir para manter a imagem. 
"26" é uma das minhas preferidas por diversas razões: por quebrar com a linha sonora do álbum; por ser uma balada com violões, o que pode lembrar a linda "Misguided Ghosts" do álbum "Brand New Eyes"; por conter arranjos de cordas e lira; por último, por possuir uma letra incrível, abordando sobre o doloroso processo de crescer e se deparar com o fato de que a realidade não é tão boa quanto parece. 

Logo após , temos a incrível"Pool", composição de Williams, York e Zac. O ar juvenil, alegre e que pode soar melodicamente com músicas pop anos 90 ou com o próprio Paramore no começo da carreira, traz uma letra que fala sobre o medo de mergulhar em relacionamentos depois de tantas decepções. 

Enquanto que em Forgiveness há um relato de dificuldade em perdoar, em "Grudges", composição de Williams, York e Farro, os muros são quebrados, o ar passa ser menos denso por mostrar uma reconciliação entre amigos que se perdoaram e querem retomar de onde pararam, apesar de reconhecerem que agora tem de conviver com o fato de que não são mais os mesmos (talvez uma referência à reconciliação ocorrida entre Zac, Taylor e Hayley,):
 "Cause we can't keep holding on to grudges" (porque não se pode continuar guardando rancores).
A faixa é iniciada com sintetizadores e depois abre para um indie delicioso que pode soar como alguma da Phoenix ou com o retrô da Taking Heads.

"Caught in the middle" é uma canção honesta sobre não se enxergar tão jovem, mas ter dificuldades de se encontrar no que chamam de vida adulta. Um pop com bons arranjos de guitarra e contrabaixo, apesar de não ter chamado tanto minha atenção. 

"Idle Worship" tem toques de indie-pop com uma interpretação "raivosa" de Williams (característica que a marcou), com certeza vai ser uma das melhores executadas ao vivo por sua energia. Soa como uma denúncia aos que se decepcionam por esperar de nós algo além do que somos, como a própria letra diz: "Oh, it's  such a long and awful lonely fall/ down from this pedestal that you keep putting me on/What if I fall on my face?/What if I make a mistake?" (Oh, é uma longa e terrível queda solitária/ daqui desse pedestal que você continua me colocando/ E se eu cair de cara?/ E se eu cometer um erro?). 

"No Friend" 
com certeza é a canção mais "difícil" do álbum, é completamente cantada pelo Aaron Weiss, vocalista da banda de rock experimental MewithoutYou e carrega muitas características dessa banda. Apesar de instrumentalmente ser incrível, trazer um aspecto sombrio interessante e possuir uma letra quase apocalíptica parecida com "Idle worship" (pelo que consegui captar), com certeza é a uma das poucas que não gostei por não sentir identificação pessoal e por achar incoerente quanto ao álbum.

Finalizando com chave de ouro, temos uma das melhores músicas do álbum, se não a melhor: "Tell me How". A canção é uma balada triste que continua com a carga emotiva lírica do disco sobre a dificuldade de perdoar, mesmo amando, a vontade de reconstruir pontes demolidas e a consciência do quanto que isso é difícil quando os corações estão cansados de recomeçar. É, definitivamente, uma canção dolorosa. (para quem entende a história da banda, é mais uma canção pessoal que provavelmente fala sobre os sentimentos da vocalista diante do rompimento com seu ex-melhor amigo Jeremy Davis).

"After Laughter" é um álbum que provavelmente trará muitas opiniões divididas quanto à coerência e identidade da Paramore diante de tantas mudanças musicais, internas e pessoais. Talvez a grande proposta seja exatamente a de, honestamente, levantar a questão sobre quem eles são enquanto músicos e fazer dos ouvintes co-participantes dessa redescoberta. 
Ainda dentro do álbum, pessoalmente senti falta de mais peso de guitarras, de mais progressão em algumas músicas e um certo desconforto da própria Hayley Williams diante de uma proposta musical diferente da que sua voz parece ser feita para cantar. É contraditório termos letras tão pesadas sobre o medo de envelhecer, ceticismo quanto às relações humanas, conformidade com a dor ao mesmo tempo em que também temos melodias alegres e arranjos dançantes, mas talvez, ao mesmo tempo o título do álbum seja uma tentativa de resposta a essas questões: o que vem depois do sorriso? Como explicar momentos tão próximos e ao mesmo tão distantes como o sorriso e a nossa expressão "after laufhter" em que percebemos que o tempo de sorrir acabou? 
Sim, "After laughter" vai dividir opiniões, vai causar desconforto nos que ouvem Paramore desde os primórdios, vai ser confundido como uma mistura de referências retrôs, mas também poderá ser visto como uma tentativa ousada e corajosa de se assumir como uma banda de pessoas que ainda estão buscando suas identidades e dentro de todo esse processo, nos convidam para crescermos juntamente com eles, e quando pensamos dessa forma, desde 2005, nos vemos acompanhando essa jornada. 


Destaques: "26", "Fake Happy", "Pool", "Grudges" e "Tell me How".  


Nota: 4/5 

Ouça você mesmo e tire suas conclusões:


sexta-feira, 5 de maio de 2017


Supercombo é dessas novas promessas do rock nacional que, definitivamente, sabem a que vieram e acabam deixando impacto em quem ouve ou assiste às suas apresentações ao vivo. A banda traz em si uma energia jovial e alegre em suas melodias, mas, na verdade, parece se propôr a ser um paradoxo ambulante: a alegria, na verdade é capa sarcástica (beirando ao ácido) para questionamentos profundos sobre a existência e a hipocrisia de nossos tempos.
Em Rogério, nome eufemístico para a figura do Diabo, temos essa mesma acidez envolta de jovialidade para questionar a nossa geração, a hipocrisia, os donos da verdade.
Rogério, que não apenas figura na capa, mas aparece em quase todo o repertório, é construído como o álibi para todos os nossos erros, pois no lugar de nos culparmos pela hipocrisia, pela ânsia de se autoafirmar com verdades vomitadas em comentários de facebook, culpamos o mal, o outro, o antagônico ao bem que representamos... O diabo, Rogério.
Com participações de artistas que representam segmentos diversos na música como Gustavo Bertoni, vocalista da Scalene, Lucas Silveira, da Fresno, Mauro Henrique, da banda Oficina G3, Medulla, Sérgio Britto e até Negra Li, Rogério é um manifesto sarcástico que ridiculariza a figura do dono da verdade, que conhece a todos e a tudo, dentro da cabine superprotetora de seu quarto, frente a uma tela.
Nem é tão importante você gostar de rock,na verdade, basta você participar da geração y, pós-moderna, pós-revolução cibernética para entender cada riff, cada arranjo, cada letra como uma descrição, por vezes constrangedora, do que somos nas nossas tentativas de nos autoafirmar diante de um mundo cada vez mais fragmentado e confuso.
Músicas indicadas: Bonsai, Monstros e grão de areia.

NOTA: 4/5



quinta-feira, 29 de dezembro de 2016

Imagem reprodução do clipe Jeremias de Gabriel Iglesias. 

O ano de 2016 foi pesado para todos nós não tem como negar.  Vários acontecimentos que vão desde catástrofes até nossa instabilidade econômica e crise política. Considero que em muitos momentos, viver esse ano mais pareceu com respirar fundo diversas vezes. Não é de se negar o papel de bálsamo que a música tem nesses momentos dramáticos de nossas vidas ou de nossas dores coletivas e 2016, nesse sentido, não nos decepcionou.
A lista a seguir contém desde álbuns de artistas comerciais até aos mais independentes, no segmento nacional e internacional e que, de alguma forma tornaram-se minha trilha sonora em diversos momentos; assim também como álbuns que escutei recentemente (seja porque foram lançados quase no fim do ano ou porque eu só tive oportunidade de ouvir agora) e que, com certeza, merecem estar aqui.

Obs.: Os discos não estão em ordem de preferência, mas acredito que os meus destaques foram 22 a million (Bon Iver); Diálogo número um (Estevão Queiroga); Pedra em Carne (Gabriel Iglesias); The Eternal Son (Rivers and Robots) e Not to Disappear (Daughter).




1. Out of exile – Strahan
Diferente do primeiro disco, Strahan traz em Out of exile texturas mais próximas ao indie-rock, pop e ao alt-country, construindo tematicamente um caminho que sugere o que é viver no exílio, na linguagem bíblica e o quanto a caminhada aqui nos molda à consciência de que há um país que pertencemos de verdade.
Destaque: Need You.




2. Melhor do que parece – O Terno
O terceiro disco da carreira do jovem trio paulistano, O terno, figura como uma das obras mais deliciosas de se escutar do ano. Sem medo de ser pop, mas sem perder a mão, o trio constrói um álbum repleto de influências que vão do rock anos 60 (som, que muitas vezes lhes é característico) até o ska e indie rock.
Destaque: Melhor do que parece







3. Tuyo – Tuyo
O trio formado por Jean Machado e as irmãs Lilian e Layane, ex-integrantes da extinta (e saudosa) banda Simonami, mostram um outro lado estético no projeto de estreia. Contando com algumas regravações e outras canções autorais, Tuyo, em uma sonoridade folk Lo-FI, apresenta elementos que remetem a um som orgânico com letras que, assim como Simonami, exploram o universo das dores humanas de uma forma bonita.
Destaque: Solamento





4. Daughter – Not to Disappear
A banda britânica de indie pop e indie folk, em seu segundo álbum na carreira, consegue ser mais feliz ainda que o lindíssimo If You Leave, na minha opinião (e seus diversos EP’s). Not To Disappear traz em si uma densidade que com arranjos belíssimos de riffs flutuantes cria um universo de sonho, de fuga, tendo a voz de Elena Tonre como um espetáculo à parte.
Destaque: How


  
5. Diálogo Número Um – Estevão Queiroga
Em seu álbum de estreia, Estevão Queiroga, primeiro artista lançado do selo LG7 pertencente a Leonardo Gonçalves, constrói um repertório permeado de brasilidade que vai da MPB até o soul contribuindo para uma sonoridade original com letras que tecem um verdadeiro diálogo entre a personalidade de quem canta e quem ouve, fazendo com que, ao final, todos se descubram no mesmo barco: a busca por si e por Deus.
Destaque: A Partida e o Norte


6. Mahmundi – Mahmundi
Mahmundi é projeto da compositora e multi-instrumentista Marcela Vale juntamente com Felipe Velozo e Lucas de Piava que, em um estilo próprio, flerta com o ló-fi, indie, música eletrônica e o experimental. Depois de dois ep’s que lhe renderam elogios e nome carimbado em diversos festivais alternativos do país, Mahmundi, primeiro disco, chega com autorais e regravações dentro de um universo meticulosamente arranjado e produzido, com timbres e sinths que dão mais corpo à voz da carioca.
Destaques: Sentimento; Leve



7. The Brilliance – See the love
Tendo David Gungor, irmão do músico Michael Gungor, como vocalista principal, o duo de indie worship, como é nominado lá fora, traz nesse EP de quatro músicas, uma mensagem de denúncia contra todo ódio propagado em nome do amor, inclusive (e principalmente) no meio religioso cristão. Se aproximando de uma sonoridade que compreende o som do indie-pop e influências dos anos 70, assim como hip-hop, See the Love é um verdadeiro manifesto em nome da paz e do amor.
Destaque: See the Love.





8. Keaton Henson - Kindly Now
Apesar de, particularmente, eu ter esperado mais do álbum, Kindly Now, consegue ser um belíssimo trabalho que vai desde a concepção da capa, que é uma verdadeira obra de arte (o que já deve se esperar do Keaton que também é artista plástico, para variar) até o caminho que se propõe nas suas letras e melodias tristes que, como é do perfil do artista, refletem sua vida pessoal. 
Destaque: No Witnesses


  
9. Anavitória – Anavitória
Anavitória é uma junção de dois nomes que pode muito bem ser um só. E nessa lógica, as duas garotas do Tocantins, formaram um duo, e, descobertas por Tiago Iorc e após um grande sucesso na internet, lançam seu primeiro álbum. Anavitória, por carregar o nome do duo se responsabiliza por apresentar a identidade musical das moças em um delicioso repertório que conta com o pop, as raízes nortistas e o folk. Delicioso de se ouvir e cantarolar durante o dia.
Destaque: Agora eu quero ir.




10. Bon Iver - 22, A million
A arte tem o poder de incomodar, e se não incomoda, traz bálsamo, mas o que se pode concluir é que não tem como sair inerte a um conteúdo verdadeiramente artístico. O novo disco da banda indie Bon Iver, encabeçada por Justin Vernon, com certeza incomodou bastante com uma sonoridade por vezes obscura e difícil de entender, diferente dos trabalhos anteriores que brincavam com o folk e o indie.
22, a million, o terceiro disco de carreira da banda que, dessa vez, flerta com a música eletrônica,  incomoda por ser fragmentado, uma porção de colagens, uma porção de misturas que resultam numa quase confusão quando de repente situa quem ouve em um alívio. Definitivamente você não sairá inerte e talvez só venha a entender (ou não entender) tudo quando ouvir pela 5º vez consecutiva.
Destaque: 8 (circle)





11. Crombie – Como diz o outro
A banda carioca encabeçada por Paulo Nazareth, desde o registro ao vivo em Niterói não lançava e surpreendeu a todos com os novos ares de Como diz o outro.
Tematicamente, o caminho registrado no álbum busca entender, diante de tantas vozes falando tantas coisas em um mundo pós-moderno, onde e quando perdemos a nossa capacidade de ouvir o outro.
A sonoridade da banda também traz novos ares com um pop brasileiro com influências do indie rock e do rock alternativo de bandas brasileiras como Los Hermanos.
Destaque: Da rotina




12. Gabriel Iglesias – Pedra em Carne
Um dos discos mais aguardados por mim este ano, apesar de conter algumas músicas que eu talvez descartaria para uma melhor coesão temática (mas quem sou eu não é mesmo? Haha), não me decepcionou e mostrou a que veio. Gabriel Iglesias é um dos artistas do selo LG7 e foge extremamente da linguagem e mercado gospel tanto por suas letras quanto pela estética. Pedra em Carne, como já escrevi aqui, tem como mensagem o caminho percorrido que conta como a Lei se tornou em carne e nos possibilitou uma nova aliança com Deus e ao mesmo tempo nos põe Jeremias como figura que nos representa em nossas angústias existências diante do peso da Palavra e a responsabilidade para com o resto do mundo.
Musicalmente é um disco ló-fi, orgânico, com flertes com o indie-folk e o experimental.
Destaques: Jeremias; Jerusalém.

13. Supercombo - Rogério
Com uma acidez que já é característica nas letras da banda, Rogério é um álbum conceitual que critica a intensa busca por culpar o outro, em uma geração viciada na própria imagem e na própria segurança em destilar ódio a todos atrás de uma tela. Com participações de grandes e diversos nomes de vários segmentos da música brasileira, o terceiro disco da banda é um dos melhores até aqui.
Destaque: Monstros.




14. Rivers & Robots – The Eternal Son
Há pouco tempo conheci essa banda e, juntamente com The Oh Hellos, tem sido minha companhia mais frequente no spotify. Escutei todos os álbuns e fora o Take Everything, este aqui, pra mim, figura como o melhor da banda até agora. 
The Eternal Son é um disco que traz letras que abordam a figura de Cristo e sua majestade, como é característica das letras da banda britânica e, por esta razão, recebem, como gênero musical a nomenclatura de indie worship. A grande diferença da Rivers and Robots para as demais bandas de worship é que o som dos caras é realmente indie-rock britânico, com camadas de vocais que dão suporte aos arranjos de guitarras. Com certeza é uma das descobertas preferidas do ano, pra mim.

Destaque: One Day With You.





15. Alexandre Magnani - Janela

Eu nunca tinha parado para ouvir nada do Magnani, até este disco e fiquei positivamente impressionada com Janela por dois motivos: o primeiro consiste na musicalidade fresca do Alexandre, que é guitarrista, e apresenta na obra referências ótimas de um classic rock e blues, assemelhando muito com o som do John Mayer. O segundo motivo é o conceito do álbum, que pelo título denuncia novas perspectivas para a práxis cristã. Olhar pela janela significa descobrir novas possibilidades e desconstruir muitos conceitos para assim crescer e, quem sabe, poder enxergar Deus para fora das quatro paredes de nossos templos simbólicos.


Destaque: Mi mi mi em sol maior; Um dia de cada vez.

Gostou da lista? O que mudaria?

E você? Qual a sua lista?

Diz pra mim aqui nos comentários <3

quinta-feira, 10 de novembro de 2016


Sigur Rós é uma banda de post-rock e experimental da Islândia muito conhecida por suas melodias, clipes e álbuns profundos e epifânicos. Mais do que quem produz, quem ouve é quem expressa melhor a essência da banda e está aí o grande paradoxo: poucas pessoas conhecem o islandês (íslenka) e mesmo assim há uma unanimidade semântica quanto ao que se entende ouvindo os rapazes das terras de gelo: é só sentimento. 
Concerto ao vivo

Documentário Heima (2008) de apresentações ao ar livre nas paisagens da Islândia.

Estamos diante de algo poderoso porque não há coordenadas codificadas de significados como a língua se propõe a ser e isso revela muito sobre quem somos e o que há de mais profundo e bonito no mundo. Somos humanos e a linguagem nos define enquanto humanos; este poderoso poder simbólico que nos cerca e que nos dá autonomia criativa e deleite contemplativo quanto à toda criação. Sigur Rós nos mostra que o significado na Arte transcende o código, é o próprio ato de dizer, é a própria forma de se cantar, é o próprio canto, a própria existência agindo e respirando. Ouví-los sempre soa como mergulhar em um mar de sonhos, de respiros profundos no ar gelado e com sol tímido das terras nórdicas. Puro deleite!

Assista você a esse clipe belíssimo de "Glósoli", uma das minhas músicas preferidas de todo o repertório dos rapazes nórdicos: 

segunda-feira, 17 de outubro de 2016


Questões e conceitos acerca do que seria a Arte e, consequentemente, obra de Arte, são debatidas desde que nos entendemos por gente, e como produção essencialmente humana, a definição para o conceito termina sempre por beirar o aberto, o incompreensível.
Mas há de se destacar que uma das grandes características que difere o objeto da obra de arte é o que aquela provoca no que aprecia. Um objeto é usado para o cotidiano e, como diria o crítico literário Octávio Paz, a Arte transcende o objeto e, de forma violenta, faz com que aquela produção nos insira além da praticidade do dia-a-dia. Por muitos anos, calcados sob uma perspectiva artística greco-romana, o entendimento de obra de arte se resumia no Belo e Bom, o sublime. Apenas o sublime em suas categorizações de valor é que definiria uma obra artística, mas este tipo de pensamento, com o passar do tempo veio a enfrentar a aparição do grotesco, a utilização de temas considerados negativos na produção artística.
O que se entende hoje por Arte antes compreende que o conceito depende da mentalidade histórica de um povo e que, por esta razão é um livro aberto, mas ainda conserva a definição primitiva de que o objeto só transforma-se em Arte quando provoca algo em quem aprecia, seja no aspecto belo ou grotesco, sublime ou reflexivo. Arte instiga.

E dentro da inquietante constatação do que nos provoca uma verdadeira Obra de Arte se encontra o álbum de estreia “Pedra em Carne” do músico Gabriel Iglesias, integrante do selo LG7 (assim como Estevão Queiroga e Felipe Valente) no casting da Sony Music Gospel. Iglesias, como artista, apesar de transparecer sua confissão cristã em toda a sua obra, assim como no próprio conceito do álbum “Pedra em Carne”, muito se afasta do que seria a linguagem do Gospel (que mais do que um mercado, é um movimento dentro do cristianismo evangélico brasileiro). O que Iglesias traz em sua obra, instiga, provoca e choca um público acostumado com fórmulas prontas em músicas que compreendem chavões religiosos e modelos instrumentais pré-concebidos, e por esta razão, acredito que, definitivamente, o jovem músico não se encaixe na linguagem e nem na “estética” do Gospel brasileiro. Isso é perceptível com a grande discussão em cima do videoclipe conceitual (belíssimo) da música “Jeremias”, dirigido por Matheus Siqueira com locações de se encher os olhos na Catalunha.



Trazendo um repertório construído a partir de uma linha narrativa baseada em Jeremias 31:33, o disco, antes do conceito, revela a alma musical de Iglesias, tendo todos os instrumentos executados por ele mesmo, assim como os arranjos e letras das músicas (em algumas letras, contando com a participação do irmão Lucas Iglesias, teólogo e também músico) e influências do eletrofolk, post-rock e indie-folk. A alma musical de Iglesias se escancara a partir da vulnerabilidade exposta na própria forma de se gravar e produzir, quase de forma caseira, experimental, orgânica, tal qual “For Emma, forever ago” (2008) de Bon Iver. O caminho da vulnerabilidade á plasticidade dos grandes estúdios se deu conscientemente por ser um suporte adequado à poderosa tônica narrativa, divida em três partes: a Lei, a Pedra, a Carne; três compartimentos que revelam a vontade de Deus e a resposta humana diante da voz de Deus.
A discussão existencial do profeta diante do que era e do que poderia ser,a partir do momento que obedecesse à voz de Deus é a grande mensagem do disco.O que Iglesias propõe, choca, instiga e provoca não apenas na linguagem musical mas por apresentar o ser numa perspectiva agonizante que nos coloca como o próprio Jeremias angustiado por carregar uma mensagem de destruição a um povo que amava e não se reconhecer digno de tal mensagem. Jeremias é a figura simbólica que representa o homem que só é quando obedece, que só existe porque ouve ao Deus que promete a aliança de encarnar a Lei e de nos habilitar para Sua vontade. Mais do que canções, há uma pregação expositiva de todo o plano Eterno para o homem e o quanto isso implicará na sua concepção de si mesmo diante do mundo, contrapondo-se ao existencialismo de Sartre, “o ‘você é’ antecede o ‘eu sou’”, encarnar a Lei, crendo por fé no Deus que se fez Carne para que isso fosse possível, é admitir que existir de verdade é, antes de tudo, uma constante tensão.

NOTA: 4,5/5

sexta-feira, 7 de outubro de 2016

Menestrel (2014) - foto divulgação.

Recentemente escrevi sobre a estranha e fantástica sensação de pertencimento a um povo, a um pedaço de chão e o quanto que isso nos constrói e nos modela como pessoas (aqui!). Ainda dentro dessa perspectiva regionalista, trago aqui uma obra que é uma daquelas coisas que a gente fecha os olhos pra assimilar toda a profundidade e beleza em cada detalhe, temeroso de perder a grandiosidade do que se está desfrutando.
Numa genial junção entre o erudito e o popular - conceitos controversos no campo da história da arte - Roberto Diamanso, traz o seu excelente segundo trabalho: "Menestrel" (2014) com onze músicas que vão de arranjos elaboradíssimos de piano e rabeca à baiões autênticos e traços da cantoria popular do Nordeste brasileiro, podendo facilmente entrar em termos de qualidade aos grandes nomes da música brasileira.
Como estudante de Letras, tenho o grande privilégio de estudar sobre Cultura e Literatura popular nordestinas, o que me possibilita tentar conhecer profundamente o que já é corriqueiro por aqui em poesia, música e formas de expressões, principalmente nos sertões dos estados. O disco de Diamanso é um grande painel de tudo o que é vivo e bonito na nossa cultura, mas ainda traz mais novidades: as boas-novas do evangelho. 

Com o título de "Menestrel", fazendo referência ao poeta europeu medieval, tal como o trovador, que em música contava grandes narrativas, Roberto Diamanso, alagoano, pastor, poeta e músico, se oferece, nesta obra, como o cAntador de histórias em plena praça pública; tendo como fio a fé no Deus que inspira toda poesia. 
Somos convidados a entrar nesse grande universo de cantoria com a belíssima Coelet, que para mim já configura como a mais bonita do disco por seu teor poético de fazer menção ao capítulo 12 do livro de Eclesiastes enquanto mostra a fugacidade da vida, e o quanto ela é pequena se os olhos não estão fixados no Criador. 
A segunda canção, Razão do Universo, traz os dedilhados de viola que muito lembram as canções de grandes nomes de cantadores como Elomar e Xangai, além da marcação belíssima da rabeca intercalando com arranjos de piano e o triângulo trazendo reminiscências do baião. Lindíssima em todos os sentidos, a letra desta canção põe como centro a figura de Cristo como o Rei de todos. 

Faina, a terceira do disco, apresenta o homem comum que acorda com o galo, trabalha com o sol e come do fruto de seu suor com o sorriso de seus filhos, tendo como sonoridade o forró de rabeca, acordeon, zabumba e triângulo. 
Menestrel, canção que traz o título do álbum, é a carta de manifesto, apresentando em um baião o propósito de toda a temática lírica: professar a fé em Cristo.

Trova nova, fazendo ponte entre as canções dos trovadores europeus e os cantadores regionais, traz uma embolada, modalidade da cantoria nordestina que apresenta o pandeiro e a voz como únicos instrumentos. A história contada na embolada narra a saga do homem comum na vida tendo como objetivo o Louvar a Deus (como Roberto comumente apresenta seu estilo musical). 
Patativa, sexta canção, traz a viola de cantoria com a temática do drama da patativa diante do descaso com a natureza. 
Pote de coaxar é a sétima faixa, mas que, ao contrário das anteriores, tem como foco a declamação de um poema com solos belíssimos de baixo acústico e piano clássico.

Com a temática do quanto somos tecidos para um relacionamento com quem nos tece, Um tecelão e um tear, nos presenteia com um baião estilizado, próprio e autêntico.
Logo após temos a canção Aquele que te guarda que, com o objetivo de ser o acalento para alma, traz versos que abordam o descanso em Deus, confiando que Ele cuidará de nós. 
Já ao fim do disco, as duas últimas canções apresentam-se como gêmeas esteticamente, carregando a mesma introdução e os mesmos arranjos de rabeca, violinos, baixo acústico, piano clássico e violões, mas diferenciando tematicamente. Ao que parece, Sonho bom, tematicamente nos mostra o propósito de toda a criação, o relacionamento com Deus, as pessoas e a natureza antes da entrada do pecado. O sonho bom que um dia foi realidade.


Eu vivo sonhando, última canção do disco é uma grande conversa com a morte, a grande consequência do pecado, que assolou o relacionamento humano com Deus, com seus semelhantes e com a natureza, tendo como pano de fundo a esperança de que, apesar desta criação estar caída, ainda virá o dia em que tudo voltará a ser como era antes, tal qual um sonho bom. 

Ao terminar de ouvir tudo o que Diamanso tem a nos dizer, encravado com os pés em seu chão de homem nordestino, imerso em uma cultura onde a poesia está no cotidiano e os versos são escadas para sonhos diante da mediocridade da vida, podemos, enfim, acordar do estado de total estupefação
perante a absurda obra que não está na língua de todos, mas inspira e encanta os ouvidos de quem para pra ouvir o menestrel cantar.

Nota: 5/5

Ouça você mesmo: