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segunda-feira, 5 de fevereiro de 2018





Comprei “Memória de minhas putas tristes” do Gabriel Garcia Márquez (11º edição, editora Record, 2006 e tradução de Eric Nepomuceno) através de um site de sebos virtuais, e por esta razão, por ser de segunda mão, possui uma citação de Hamlet feita pelo antigo dono. Essa é uma das magias de se comprar livros de segunda mão: você se sente conectado com cada pessoa que apreciou a obra, como em uma fraternidade secreta que compartilha bons segredos. Por que falo isso? Porque é a partir do relato, da sensação de que se está testemunhando algo íntimo que nós, os leitores, nos encontramos ao ler este romance do premiado e saudoso escritor colombiano, considerado por muitos o precursor do realismo mágico, Gabriel Garcia Marquez. Aqui, nesta obra, que não possui nada do fantástico de Cem anos de solidão, por exemplo, acompanhamos a história de um idoso prestes a completar noventa anos que decide ter uma noite de “amor” com uma menina virgem de 13 anos, tudo orquestrado pela sombria cafetina Rosa Cabarcas. 

O livro é estruturado em 5 capítulos e narrado em primeira pessoa, sendo este narrador o principal personagem, então claramente o que iremos ler é a versão do ancião e isto significa muita coisa.
O personagem principal, um velho escritor de uma coluna semanal, é um homem solitário que passou a vida toda frequentando bordeis e vivendo histórias de amor com prostitutas, mas sem se apegar a elas. Ao longo de sua vida vai sendo uma pessoa normal, sem grandes feitos, sem casamentos, sem algo para dizer de extraordinário. Vive em uma grande casa herdada dos pais sem móveis e tendo como companhia a empregada que, por alguns anos fora sua amante. 

Toda essa conformidade em não ter sido alguém que viveu uma extraordinária vida continua até que ele completa noventa anos e se percebe, finalmente, como um velho prestes a morrer. A iminência da morte, a fatal crueldade dos anos travestida em cansaço e enfado de velhice tiram-no do piloto automático de seus dias e por esta razão decide se dar de presente uma noite com uma “ninfeta”, proposta da cafetina Rosa Cabarcas depois de perceber que pela velhice, seus limites morais não faziam mais tanto sentido. 

O que vemos no encontro entre o ancião e a menina é a recriação do conto de fadas da “bela adormecida” já que a misteriosa menina, descrita por Rosa como pobre que trabalhava numa fábrica para criar seus irmãos pequenos (e aí percebemos que a prostituição aliciada por Rosa é uma alternativa de urgência e não de voluntariado) tomara medicamentos para dormir de tão nervosa para o encontro. Em toda a obra, em nenhum momento a menina, em todos os encontros que tivera com o ancião, acordara e por esta idealização de quem seria, de como seria sua vida, de quais eram seus sonhos e da não consumação, o protagonista vê-se perdidamente apaixonado e com isto, com um “amor” que finalmente não se resumia à carne, mas ao contrário estava acima chegando ao ápice espiritual, sua vida até então insignificante ganhara algum sabor. 

Com esta recriação do conto de fadas, o que se percebe é que há uma áurea de amor espiritual em toda a idealização do velho para com a menina adormecida, mas em nenhum momento há a perspectiva da garota, deixando com que certo mistério seja construído ao redor de sua imagem e isso contribui para uma ausência de desconfiança sobre os desejos e anseios da criança, fazendo com que a versão do protagonista e as falas de Rosa Cabarcas sobre o aparente “amor correspondido” da moça sejam de alguma forma aceitos pelo leitor. 
 A obra pode ser lida como uma ode à significância da vida frente a percepção de que o sentido das coisas são mais transcendentais e vivos do que simplesmente a superfície delas, mas ficou em mim, particularmente, uma sensação de injustiça.  
 
Como se percebe, assim como em Lolita de Vladimir Nabokov, aqui há uma relação de pedofilia, mas diferente da obra do russo, percebemos que há, de verdade, uma romantização da pedofilia, uma tentativa de mostrar que esse caso é realmente uma história de amor e aí está um dos meus grandes problemas com o livro. É certo que não devemos julgar uma obra pelos nossos critérios morais, mas aqui não há um desafio inteligente ao que consideramos certo ou errado, como ocorre em Lolita (que é um dos meus livros preferidos da vida), por exemplo. Na obra de Nabokov nós sabemos que o protagonista está em um incansável jogo de manipulação para com o leitor e acabamos nos simpatizando com seu “sofrimento” e isso é genial.

 Aqui na obra de Gabo há uma completo silenciamento da garota em prol de uma história de “amor” com totais intenções de assim parecer. Se em Nabokov o silêncio da outra parte e a descrição duvidosa do caráter de Lolita feita por Humberto é um instrumento de manipulação linguística do narrador (que é um tipo de personagem) para fazer com que nós nos questionemos sobre a raiz de nossos critérios morais, aqui em Memória de minhas putas tristes há o que posso chamar de desonestidade intelectual ao fazer do sofrimento de uma criança um prato cheio para a exaltação, felicidade e prazer sem limites de um homem a fim de ser vendido como uma história de amor que dignifica e louva a vida. 

Sob os critérios de Oscar Wilde, a obra é bem escrita e por vezes me vi deliciada nas memórias do ancião, em sua percepção bonita e reflexiva sobre o tempo, a velhice, a morte e o sentido da vida, mas ao mesmo tempo não vi uma preocupação artística em fazer do imoral algo que, pelo menos, desafiasse a mim de forma inteligente e coerente. De todo o jeito é imprescindível ler Gabo, se deliciar com sua escrita maravilhosa, mesmo que isso signifique se sentir decepcionada com o conteúdo.

Nota: 6,9

sexta-feira, 15 de setembro de 2017

ATENÇÃO: CONTÊM SPOILERS!




Baseado na série de livros "As crônicas de gelo e fogo" de George R.R. Martin, Game of Thrones, adaptação televisiva por David Benioff e D. B. Weiss, tornou-se com o passar dos tempos um dos maiores fenômenos da tv (se não o maior), com números gigantescos de pessoas assistindo, comentando, teorizando e vivendo a série semana após semana. 

Para uma melhor explanação, irei me ater apenas a série, visto que ainda não li os livros (apesar de já ter começado o livro I).


Os personagens dessa incrível história de Martin estão tão dentro do imaginário da cultura pop atual que houve uma explosão de escolhas de nomes como "Daenerys", "Tyrion" e "Arya" para bebês nos EUA segundo o Huffpost, assim como o gigantesco número em audiência da série adaptada pela HBO todos os domingos. 
Mas diante de tão estrondoso sucesso, qual seria o segredo? As crônicas de Gelo e Fogo, e logicamente a sua versão adaptada pela HBO (que se tornou uma obra à parte, inclusive) conta-nos uma história diferente das comumente exibidas. E isto não se deve apenas ao fato de, corajosamente, levar extrema violência e sexo para um horário nobre de TV, por exemplo, mas em algo mais profundo: os personagens da história de Martin são incrivelmente complexos. 



Em um mundo cada vez mais polarizado, em que opiniões são levantadas como granadas contra outros e onde existe uma tentativa de endossar bons contra os maus, Game of Thrones nos presenteia, ironicamente, em um universo fantástico, com doses violentas e cruas de realidade.

Logo no primeiro episódio da série (assim como os primeiros capítulos do livro), nós somos apresentados a um momento inquietante: Ned Stark, Lorde de Winterfell, homem bom, honrado, ótimo pai e esposo, sentencia e mata, por suas próprias mãos, um homem por ter abandonado seus votos, homem este que fugira na floresta por ter visto o que viria a ser a maior ameaça de toda a narrativa.
O que vemos aqui? O protagonista honrado, apesar de certo em justiça, matando um homem bom, aparentemente, por infringir uma pequena regra. A honra antes da vida. A honra que o fez morrer da mesma maneira. Temos os olhos de Bran ao assistir a execução, perguntamo-nos no porquê as pessoas matam, e no porquê um homem tão bom como Ned Stark estava desse lado da história. 
Estamos diante de Game of Thrones, em um universo em que a morte é a primeira inimiga e a última, e em que as pessoas estão andando em círculos, caindo em suas próprias armadilhas, morrendo a partir de suas próprias escolhas. Ninguém fugiria desse dilema de conviver com o peso dos próprios erros e acertos. Nem, tampouco, Ned Stark. 

Se estivéssemos diante de uma novela, passaríamos agora  do núcleo dos mocinhos, que seriam os Stark(sem contar os outros núcleos de mocinhos como o de Daenerys, por exemplo) para o núcleo dos vilões, Lannisters, mas felizmente, não estamos vendo uma novela.

O que falar de personagens como Jaime Lannister, um ardiloso cavaleiro que nos deixou estarrecidos com sua brutalidade ao empurrar Bran da torre e praticamente iniciar parte do conflito dos Lannister contra Starks, que levou, inclusive à morte do personagem-chave de toda a história, Ned Stark?

Jaime, em uma série ou livro qualquer seria apenas um playboy rico, bonito e de péssimo caráter, mas não em Game of Thrones. 
Antes regicida (matou o rei que jurou proteger), arrogante e maquiavélico, com o tempo, passamos a ser confrontados com um Jaime frágil, inseguro e em eterno limbo. Um homem que depois de todas as suas ações, passa a questionar-se do porquê de tudo e tentar reparar algumas questões, apesar de ainda permanecer com os fantasmas do passado e viver atribulado por ser a sombra de sua irmã.

Não tão diferente, e ainda na mesma família, temos Cersei Lannister, sua irmã e amante. Talvez a personagem mais complexa e bem construída de toda a trama, Cersei é a mulher capaz das maiores atrocidades, cujos olhos brilham de prazer ao ver o sangue de inimigos derramado, ou criaturas frágeis que se colocam em seus caminhos serem brutalmente despedaçadas por seus planos ardilosos. Mas Cersei também é a que cresceu sem a mãe, tendo como função de vida ser vendida a um homem que não amava e que mais tarde a estupraria e espancaria; Cersei é a que cresceu assombrada com as profecias que ouvira quando criança, sobre o terror iminente de ter seus filhos mortos e ser assassinada. 
Cersei é a rainha louca que manda explodir um templo religioso cheio de pessoas inocentes apenas por conter alguns inimigos, ao mesmo tempo que é a mulher que prefere envenenar seu filho para uma morte sem dor a vê-lo sofrer, enquanto com olhos cheios de lágrimas, conta-lhe uma história, ao entender que a batalha estava perdida e ele, provavelmente, seria violentamente assassinado pelos inimigos.

E o que dizer de personagens como Cão de Caça, um brutamontes sem coração, com sangue nos olhos e pronto para aniquilar qualquer pessoa sem nenhum remorso, que de repente vê-se enternecido paternalmente ao salvar Sansa Stark do abuso e cuidar, ao seu jeito, de Arya Stark, protegendo-lhe a vida e infância?

Ainda posso citar Theon Greyjoy, o traidor da casa Stark capaz de promover a ruína da família por sua ambição e orgulho, mas que se vê destruído mentalmente e fisicamente por Ramsay, e preso num dilema existencial que o faz se perguntar constantemente sobre quem é e qual o propósito de sua vida, dando-nos raiva quando trai os Stark e nos tirando lágrimas dos olhos, quando mesmo confuso, salva Sansa e, despedaçado pela vida, decide juntar os cacos de si mesmo para uma nova chance.

E por que não falar da própria Sansa Stark, garota superficial e fútil dos primeiros momentos, que praticamente provocou morte do seu pai, Ned Stark por seus caprichos e escolhas baseadas em puro egoísmo? Essa mesma Sansa é a que, a duras penas, aprende a, sem armas, lanças ou violência, sobreviver aos piores inimigos, persuadir o homem que sempre a manipulou e retomar de forma inteligente o Norte. Entre a arrogância e a humildade, o orgulho e o arrependimento, Sansa é titubeante, insegura, misteriosamente carrega resquícios de seu egoísmo, mas deseja mais que tudo sentir-se em casa, entender-se, de uma vez por todas, como alguém que precisa proteger a família e fazer parte dela.



Dentre todos esses exemplos de personagens complexos, o que na literatura chamamos de redondos, fica-se evidenciado o porquê de tanto sucesso. Claro que ter dragões bem construídos, lindas fotografias, um roteiro que nos presenteia com diálogos fantásticos e um espetáculo de produção ajuda muito, mas o triunfo de Game of Thrones reside na capacidade imperiosa de ser um espelho coerente de todas as nossas próprias contradições.


Por mais que queiramos, nós nunca nos adequaremos aos papéis maniqueístas de filmes de super-heróis. Por mais que tentemos, não cabe em nós o uniforme daquele que se sacrifica pelo bem maior e luta bravamente contra o arqui-rival... O rival é o violento residente da nossa alma, nossa personalidade titubeante e angustiada que dança entre pólos extremos, com ações de bondade convivendo com nossos mais odiosos vícios e baixezas. Nem os que mais se parecem com os heróis, na narrativa, como Jon Snow e Daenerys Targaryen fogem de suas próprias contradições. Jon é o rapaz que cresce sob o estigma do título de bastardo do seu pai, Ned, mas dentre todos os Stark é o que mais se assemelha a ele em justiça, honra e retidão. Jon também é o homem atribulado por escolhas ruins e atitudes louváveis em honra, mas que lhe tiraram a paz pela moral, como condenar a morte um traidor da patrulha, que na verdade era uma criança. 
Daenerys Targaryen é a conquistadora que após passar por momentos de crucial sofrimento, sendo traída pelo próprio irmão, vendida e estuprada por um selvagem, consegue exércitos e poder por conta própria e confiando apenas em si mesma. É a mesma mulher que crucifica todos os lordes, maioria senhores de escravos de Mereen, sem se dar conta que também estavam, entre eles, pessoas inocentes que não participavam do sistema escravocrata. É a mesma mulher que chora por não ter conseguido filhos, mas queima pai e filho por traição. 

Nem os heróis estão à salvo.

Game of Thrones, por mais que queira, em uma análise intermediária da narrativa, retratar um jogo político inspirado na formação da Inglaterra com toques de realismo mágico, faz muito mais: Game of Thrones nos lê e nos revela como esse ser contraditório, contrastante... Humano demais para vilão, humano demais para herói.


quinta-feira, 17 de agosto de 2017

Da esquerda para direita: Rafael (guitarrista), Pablo (guitarrista e vocalista) e Diego (baterista)

Nooma, um nomem aparentemente incomum, vem do grego pneuma que significa “sopro de vida”. Essa explicação foi feita pelo guitarrista Rafael, integrante da banda que recebe o mesmo nome, para o blog Rock for Jesus (você pode conferir aqui essa entrevista). Curiosamente é essa a sensação que se tem após ouvir o som da banda carioca formada por Pablo Teixeira (guitarra e vocal), Rafael (Guitarra) e Diego(bateria), especificamente do primeiro trabalho do trio: “Nooma” (2015), um EP produzido pelo Duda Andrade, contendo cinco faixas. A sensação de vitalidade e injeção de vida é carregada não apenas nas letras que versam sobre devoção e adoração, com estruturas essenciais de salmos modernos, mas também pela atmosfera etérea de post-rock em quase todas as músicas.
Com influências claras em timbres de guitarra de bandas como Explosions in the Sky, Nooma nos apresenta um EP coeso que propõe uma linguagem e lírica de fuga do que é palpável e físico para um universo de ideal, o metafísico, mas com uma clara evidência de ainda estar com os pés no chão. É esperança, é alívio, mas antes de tudo é resgate do céu para a terra, a partir das angústias terrenas.
“Dos montes”, inicia esse pedido de socorro. É a partir da angústia do salmista moderno, que evoca o salmo 121, que a viagem do ep começa. Apesar dos conflitos internos de não haver respostas no aqui, os arranjos delicados e a introdução mais ou menos extensa de calmaria, preparam o ouvinte para a fé de saber que o clamor será ouvido. Da fé nasce a esperança;da esperança nasce o coração grato, pronto para agradecer apesar de não ver as respostas concretas. E isso é a adoração expressa nas estrofes: “eu elevo os meus olhos/ para os montes/ de onde me virá / o socorro / o meu socorro vem/ do senhor / aleluia, aleluia” e na bonita certeza que é o ápice da canção em grito e progressão sonora: “na minha angústia/ eu clamo ao senhor / e Ele me ouve”.
Capa do EP autointitulado (2015).

Em seguida temos a belíssima “Onde estou”, com uma linda e longa introdução de cordas e violão, seguida de bateria e riffs de guitarras. Aqui a interpretação e efeitos de reverb na voz de Pablo, encarnam o cerne da música que é o conflito entre estar e estar. Enquanto enfrenta os dias maus, a voz lírica, apesar das inconstâncias dos dias, não abala a fé, por entender que seu relacionamento com Deus não se baseia em circunstâncias, mas no lugar onde se está, em coração e alma. Os momentos finais em que a frase “eu estou em Ti” é repetida diversas vezes, traz não apenas a certeza de que as coisas terminarão bem, pela companhia dEle, mas a decisão de mesmo em angústia e inconstância, querer estar nEle.
Geralmente uma outro é continuação da canção anterior, e “Outro”, terceira faixa,  surge como essa continuidade de “Onde estou”, mas diferente desta, a canção se contrapõe ao sufoco proposital, apesar de esperançoso e insere um ambiente de alívio a partir de uma instrumentação crescente e melodicamente etérea, como se a fé militante da canção anterior tivesse produzido o estado em que se propunha: a paz de estar em Deus.


Com marcações de bateria e vocais sobrepostos, juntamente com os riffs oitavados de guitarras, “Mais alto”, quarta faixa do ep, ao contrário das outras, não constrói um universo sonoro de fuga esperançosa, mas algo perto do grito de guerra, por ter como base acordes menores. Apesar disso, liricamente, não há menção aos momentos difíceis ou a qualquer obstáculo terreno, tudo é centrado na conversa do ideal, o plano superior. O caminho percorrido até aqui faz dessa música, a começar pelo título, um lugar diferente das outras por já estar neste lugar, que não é físico, mas espiritual. Um lugar mais alto. Este lugar é o da certeza do amor constante e insistente de Deus, que faz com que todas os outros detalhes sejam dissipados.
Iniciando com parte da estrofe (“aleluia, aleluia...”) da primeira música (“Dos montes”), a última música, “Amanheceu”, instrumental, indica o estado de completa paz espiritual como destino de toda a jornada construída durante a narrativa do EP. Aqui os singelos acordes e efeitos reverb de guitarra, juntamente com todo clima causado pelos pratos sutis do baterista Diego, nos transportam para este lugar de paz nos primeiros minutos da canção para logo após explodir sonoramente em uma sequência de acordes e ritmo que remetem a um frenesi de alegria que nasce da esperança: sensação de que realmente o sol nasceu e a manhã chegou. A canção termina em fade out, indicando que imageticamente ainda estará soando... Eterna.
O lugar de paz, que aqui pode-se dizer a eternidade, depois da longa noite que é viver neste mundo, é a busca, a luta e, por fim, a conquista de toda a jornada lírica do EP, e é nessa faixa que o nome “Nooma” ganha contornos grandiosos que respondem a questões centrais: o propósito da banda e o propósito do EP. Se o sopro de vida do Éden nos formou e fincou no nosso ser a existência, continuará sendo este fio que nos prende à Eternidade o motivo de nossa existência e a garantia que um dia o alívio, o bálsamo e a paz espiritual serão pra sempre.


Nota: ***** (ótimo!)

Recomendadas: "Dos montes", "Outro" e "Amanheceu". 

Ficha técnica:

Produção: Duda Andrade & Nooma

Mixagem e masterização: Bernardo Fragale

Baterias: Diego Vicente

Guitarras: Rafael Loureiro, Pablo Teixeira

Vocais: Pablo Teixeira 


Ouça você mesmo: 

sexta-feira, 21 de julho de 2017

Da esquerda para a direita: Dan Rothman, Hannah Reid e Dot Major.


Lançado no dia nove de junho de 2017 pela Metal & Dust e Ministry of Sound, o segundo álbum do trio de trip-hop e indie pop London Grammar, “Truth is a Beautiful Thing”  chega ao mundo com a pretensão de contar histórias melancólicas a partir da atmosfera etérea de sonho de seus arranjos e da belíssima voz de Hannah Reid.


Contando com uma equipe grande de produtores, entre eles Tom Elmhirs, conhecido por seus trabalhos ganhadores de Grammy com artistas como Amy Winehouse, Adele e Beck, “Truth is a Beautiful Thing” apesar de longo – o álbum possui mais de uma hora de música – possui uma coesão sonora tão bem construída que faz com que o ouvinte esqueça dessa pequena falha.


Minha história com London Grammar não é tão antiga. Conheci a banda através de uma prima com a música “Strong”, um dos primeiros trabalhos do trio, e lembro perfeitamente com o quanto fui cativada por toda aquela atmosfera melancólica acompanhada de beats, enquanto a voz exótica de Hannah Reid entrava pelos meus ouvidos. Desde então, tenho guardado London Grammar no meu coração e acompanhado cada passo de Hannah, Dot Major e Daniel Rothman.


E dentro dessas andanças de fã, na madrugada do dia oito para o dia nove de junho, estava eu atenta aos lançamento do disco no spotify e, mesmo já tendo ouvido a primeira canção, “Rooting for you”, por ter sido o single, o impacto da música, executada com poucos instrumentos e quase totalmente voltada para a voz da vocalista, encheu meu peito.

Capa do disco "Truth is a Beautiful Thing" (2017).


Há, de maneira sutil na canção, uma imagem profética de toda a estrutura “narrativa” do disco: a verdade como algo dolorosamente necessário. A verdade de saber que o outro não corresponde aos seus sentimentos, mesmo quando se sabe do pouco que recebe e da solidão que um relacionamento não recíproco provoca.


A dor da rejeição continua em “Big Picture”, mas ao contrário da canção anterior, aqui há uma constatação da frieza da pessoa amada e do quanto isso afetou a voz lírica. Uma atmosfera dream pop é criada gradualmente pelos programadores e beats sutis e rufados de Dot Major, pelos efeitos reverb na voz de Hannah e a guitarra climática de Daniel Rothman, proporcionando talvez o contraste entre a letra e a música que definem o álbum: frieza e docilidade; dor e beleza.


Notas no piano Rhodes são executadas enquanto sombriamente a voz de Hannah anuncia: “O sol sufoca a atmosfera/Mas estou a salvo com você longe de você/Outro incêndio através de outra porta aberta/É o que eu estou vivendo”. Estamos diante de “Wild Eyed”. A dureza de se estar solitário em um relacionamento é dramaticamente desenhada pelos arranjos climáticos dos beats e riffs em uma canção de quem sente o peso de não saber mais o que esperar quando se ama alguém, não mais o conhecendo: “oh, quais são os seus sonhos?”.


Em seguida somos apresentados a mais um single do álbum, “Oh Woman oh Man”, que tem alcançado sucesso por ser um bom exemplo do que London Grammar faz: trip-hop de primeira. A trajetória narrativa aqui, depois da frieza percebida em “Wild Eyed” ancora em uma constatação de que o outro está desistindo ao mesmo tempo que brinca com a palavra woman e a expressão oh man por serem parecidas sonoramente, para enfim questionar: você está me abandonando, mas não sou eu que escolho você? (“Woman choose your man/Do you really understand?/Do you really understand?”).


Se é sob o conceito de honestidade que esse álbum se ancora, “Hell to the liars”, com certeza, poderia ser o resumo de tudo. A honestidade não está apenas no fato de perceber que se está vivendo em relacionamentos não correspondidos e cheios de vácuos solitários, mas o de reconhecer que se existem culpados, estes fazem parte de você e de mim. Estes são você e eu.



“Hell to the liars” é talvez a música que mais me toca neste álbum. Ela resume em construção sonora e lírica todo o conceito do álbum e traz um dos melhores fins de música que já ouvi na vida. Não tem como não se sentir num sonho ouvindo toda a orquestração do trio londrino e fechar os olhos encantada(o), apesar de perceber que a letra é um verdadeiro tapa na cara.


“Everyone Else” é uma ótima construção de trip hop: beats eletrônicos em evidência misturados a riffs e efeitos programadores enquanto a voz lírica tenta lutar com sarcasmo contra a dor de ser rejeitada.


E é com beats indie pop, trip-hop e sotaque britânico que “Non Believer” inicia; sonoramente com uma atmosfera de indiferença, a canção vai se pintando ao passo que a voz lírica desabafa amargamente sobre traição e infidelidade. Um dos pontos altos é a distorção da voz que cria um clima etéreo e aparentemente monótono para endossar o sarcasmo e indiferença da voz lírica.


Sequencialmente ouvindo o álbum se percebe que há uma linha narrativa linear, desde a primeira percepção de solidão de estar a dois até a descoberta da infidelidade. Em “Bones of Ribbon” há um jogo inteligente lírico de antítese: enquanto a pessoa amada é feita de metal, a voz lírica brinca ironicamente com a expressão “ossos de fita” e, contrastantemente, em força decide que o outro deve ir, usando de sinestesia para comparar as fitas coloridas mudando a cor para descrever a si mesma em transição.


Se em “Bones of Ribbon” há a decisão de um rompimento, em “Who Am I”, uma das canções mais bonitas do disco e do ano, percebe-se a crise de identidade de alguém que esteve tanto no outro que se perdeu. A canção é triste com riffs sutis, Rhodes e a voz melancólica de Hannah, que aqui parece encarnar toda a dor de quem sofre por ver quem ama partir, enquanto questiona o que sobrou de si mesmo.


“Who Am I to want you now you’re leaving/Who Am I to judge you now you’re leaving”


Estamos na faixa nove de um álbum que contém dezoito faixas, e assim se percebe que talvez a duração seja um dos únicos pontos falhos na execução da obra, já que ao ouvir pode causar a impressão de que está tudo completo em execução, arranjos e lírica, dando a entender que uma história parece ter chegado ao fim, narrativamente falando.


Mas ainda somos apresentados a “Leave the war with me”, em uma interessante performance vocal de Reid versando sobre uma possível reconciliação, apesar do entendimento de que talvez não haja mais amor na relação.


“Truth is a Beautiful Thing”, canção que carrega o título do álbum, não poderia ser diferente: poderosa, apesar de instrumentalmente simples, a canção é irmã de “Rooting for you”; trazendo elementos semelhantes sonoramente: voz potente e os pianos e programadores, a letra de “truth is a beautiful thing” dialoga com “Rooting for you” no desejo de estar com a pessoa amada, tendo uma única diferença: na primeira canção o desejo existe apesar de fisicamente o outro estar perto, enquanto nesta a saudade é literal, pois o outro não está mais perto fisicamente.

Nas duas canções o conceito de verdade é construído como o mais íntimo desejo de estar perto, de rebaixar-se a ponto de querer estar perto da pessoa amada mesmo que ela não ame de volta. Essa é a verdade almejada em Rooting for You: “E para onde ela foi?/A verdade nos deixou há muito tempo/E eu preciso dela hoje à noite pois tenho medo da solidão com você”, e saudosamente cantada em Truth is a beautiful thing: “Você pode tomar o meu lugar e ficar aqui?/Eu não acho que você levaria essa dor/Você vai ficar de joelhos e lutar sob o peso/Ah, a verdade seria uma coisa linda/Ah, a verdade é uma coisa linda”.




Em “What a Day”, os sussurros e agudos de Reid introduzem a canção enquanto beats e rufes fazem cama para um piano, enquanto há uma espécie de raiva por enxergar o relacionamento como uma mentira. Gradualmente a música vai crescendo e ganhando contornos épicos. Uma bela revolta.


“Diferent breeds” continua a linha narrativa de fim de relacionamento e nos apresenta o encontro dos dois após o rompimento. Há constrangimento, lembranças e dor enquanto a música vai sendo construída como uma boa canção pop. Possivelmente a voz lírica não esqueceu do amado. Em “Control”, no entanto, há a primeira amostra de uma superação (“E acho que isso é controle/Estar esquecendo seu nome”), com sintetizadores que lembram canções pop anos 80 e riffs envolventes.


Por ser um álbum em versão deluxe, a canção seguinte é a demo chamada “Trials” e apenas em piano, versa sobre a complexidade de enxergar o fim do relacionamento, lidar com os sentimentos remanescentes e perceber que eles não são suficientes para sustentar um relacionamento: “Quando estou com você, eu não estou sozinho/Ainda acredito que não seja suficiente”.


“May the Best (church mix)” é uma ótima canção que não deixa claro se o que está acontecendo liricamente é uma reconciliação e o medo de perder o momento em que se está junto de novo ou se é a descoberta de um novo amor juntamente com o temor de que não dê certo, mas claramente se percebe medo do relacionamento. De qualquer forma o que se percebe é que há medo de amar, e que isso implica no risco da perda.


Logo após “May the Best (church mix)”, por ser deluxe, há uma versão demo de Rooting for you, que até a este ponto parece ser a canção-chave de todo o conflito narrativo. A repetição da música dentro do repertório, se atentarmos um pouquinho mais pode significar ainda mais: rooting for you é o símbolo do círculo vicioso de alguém que não consegue esquecer aquela pessoa que tanto amou um dia.


Finalizando o disco de forma grandiosa, temos a canção “Bitter sweet Symphony” em versão live, mostrando o grande talento do trio britânico em executar suas canções ao vivo. “Bitter sweet Symphony” é uma amarga canção que conclui o círculo narrativo (e vicioso) de alguém após um trágico rompimento e que percebe que a maior dor entre todas as sentidas é a de não se reconhecer depois de tudo, é a de perceber que a vida caminha para a morte e mesmo assim não se tem uma clara ideia sobre quem se é de verdade, principalmente quando se está perdido após perder a identidade dentro de um relacionamento. “Truth is a beautiful thing” possui falhas de execução por deixar o álbum longo e talvez levar ao cansativo para alguns ouvidos (porque para mim passou rapidinho), mas consegue entregar um conceito coeso sobre o que propôs fazer. A verdade é dura de ouvir e paradoxalmente a verdade é bonita, porque dentro do contexto da narrativa apresentada, ela é o desejo mais profundo de que todo esse mar de lágrimas entre duas pessoas que um dia se amaram, nunca tivesse acontecido. Que bonita que é a verdade, e que duro de saber que ela já se foi. 


 

Destaques: Rooting for you, Hell to the liars, Who am I, Truth is a Beautiful Thing. 

 

Nota: ****** (excelente!)

Ouça você mesmo! (de preferência enquanto lê).