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| Da esquerda para a direita: Dan Rothman, Hannah Reid e Dot Major. |
Lançado no dia nove de junho de 2017 pela Metal & Dust e Ministry of Sound, o segundo Ă¡lbum do trio de trip-hop e indie pop London Grammar, “Truth is a Beautiful Thing” chega ao mundo com a pretensĂ£o de contar histĂ³rias melancĂ³licas a partir da atmosfera etĂ©rea de sonho de seus arranjos e da belĂssima voz de Hannah Reid.
Contando com uma equipe grande de produtores, entre eles Tom Elmhirs, conhecido por seus trabalhos ganhadores de Grammy com artistas como Amy Winehouse, Adele e Beck, “Truth is a Beautiful Thing” apesar de longo – o Ă¡lbum possui mais de uma hora de mĂºsica – possui uma coesĂ£o sonora tĂ£o bem construĂda que faz com que o ouvinte esqueça dessa pequena falha.
Minha histĂ³ria com London Grammar nĂ£o Ă© tĂ£o antiga. Conheci a banda atravĂ©s de uma prima com a mĂºsica “Strong”, um dos primeiros trabalhos do trio, e lembro perfeitamente com o quanto fui cativada por toda aquela atmosfera melancĂ³lica acompanhada de beats, enquanto a voz exĂ³tica de Hannah Reid entrava pelos meus ouvidos. Desde entĂ£o, tenho guardado London Grammar no meu coraĂ§Ă£o e acompanhado cada passo de Hannah, Dot Major e Daniel Rothman.
E dentro dessas andanças de fĂ£, na madrugada do dia oito para o dia nove de junho, estava eu atenta aos lançamento do disco no spotify e, mesmo jĂ¡ tendo ouvido a primeira canĂ§Ă£o, “Rooting for you”, por ter sido o single, o impacto da mĂºsica, executada com poucos instrumentos e quase totalmente voltada para a voz da vocalista, encheu meu peito.
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| Capa do disco "Truth is a Beautiful Thing" (2017). |
HĂ¡, de maneira sutil na canĂ§Ă£o, uma imagem profĂ©tica de toda a estrutura “narrativa” do disco: a verdade como algo dolorosamente necessĂ¡rio. A verdade de saber que o outro nĂ£o corresponde aos seus sentimentos, mesmo quando se sabe do pouco que recebe e da solidĂ£o que um relacionamento nĂ£o recĂproco provoca.
A dor da rejeiĂ§Ă£o continua em “Big Picture”, mas ao contrĂ¡rio da canĂ§Ă£o anterior, aqui hĂ¡ uma constataĂ§Ă£o da frieza da pessoa amada e do quanto isso afetou a voz lĂrica. Uma atmosfera dream pop Ă© criada gradualmente pelos programadores e beats sutis e rufados de Dot Major, pelos efeitos reverb na voz de Hannah e a guitarra climĂ¡tica de Daniel Rothman, proporcionando talvez o contraste entre a letra e a mĂºsica que definem o Ă¡lbum: frieza e docilidade; dor e beleza.
Notas no piano Rhodes sĂ£o executadas enquanto sombriamente a voz de Hannah anuncia: “O sol sufoca a atmosfera/Mas estou a salvo com vocĂª longe de vocĂª/Outro incĂªndio atravĂ©s de outra porta aberta/É o que eu estou vivendo”. Estamos diante de “Wild Eyed”. A dureza de se estar solitĂ¡rio em um relacionamento Ă© dramaticamente desenhada pelos arranjos climĂ¡ticos dos beats e riffs em uma canĂ§Ă£o de quem sente o peso de nĂ£o saber mais o que esperar quando se ama alguĂ©m, nĂ£o mais o conhecendo: “oh, quais sĂ£o os seus sonhos?”.
Em seguida somos apresentados a mais um single do Ă¡lbum, “Oh Woman oh Man”, que tem alcançado sucesso por ser um bom exemplo do que London Grammar faz: trip-hop de primeira. A trajetĂ³ria narrativa aqui, depois da frieza percebida em “Wild Eyed” ancora em uma constataĂ§Ă£o de que o outro estĂ¡ desistindo ao mesmo tempo que brinca com a palavra woman e a expressĂ£o oh man por serem parecidas sonoramente, para enfim questionar: vocĂª estĂ¡ me abandonando, mas nĂ£o sou eu que escolho vocĂª? (“Woman choose your man/Do you really understand?/Do you really understand?”).
Se Ă© sob o conceito de honestidade que esse Ă¡lbum se ancora, “Hell to the liars”, com certeza, poderia ser o resumo de tudo. A honestidade nĂ£o estĂ¡ apenas no fato de perceber que se estĂ¡ vivendo em relacionamentos nĂ£o correspondidos e cheios de vĂ¡cuos solitĂ¡rios, mas o de reconhecer que se existem culpados, estes fazem parte de vocĂª e de mim. Estes sĂ£o vocĂª e eu.
“Hell to the liars” Ă© talvez a mĂºsica que mais me toca neste Ă¡lbum. Ela resume em construĂ§Ă£o sonora e lĂrica todo o conceito do Ă¡lbum e traz um dos melhores fins de mĂºsica que jĂ¡ ouvi na vida. NĂ£o tem como nĂ£o se sentir num sonho ouvindo toda a orquestraĂ§Ă£o do trio londrino e fechar os olhos encantada(o), apesar de perceber que a letra Ă© um verdadeiro tapa na cara.
“Everyone Else” Ă© uma Ă³tima construĂ§Ă£o de trip hop: beats eletrĂ´nicos em evidĂªncia misturados a riffs e efeitos programadores enquanto a voz lĂrica tenta lutar com sarcasmo contra a dor de ser rejeitada.
E Ă© com beats indie pop, trip-hop e sotaque britĂ¢nico que “Non Believer” inicia; sonoramente com uma atmosfera de indiferença, a canĂ§Ă£o vai se pintando ao passo que a voz lĂrica desabafa amargamente sobre traiĂ§Ă£o e infidelidade. Um dos pontos altos Ă© a distorĂ§Ă£o da voz que cria um clima etĂ©reo e aparentemente monĂ³tono para endossar o sarcasmo e indiferença da voz lĂrica.
Sequencialmente ouvindo o Ă¡lbum se percebe que hĂ¡ uma linha narrativa linear, desde a primeira percepĂ§Ă£o de solidĂ£o de estar a dois atĂ© a descoberta da infidelidade. Em “Bones of Ribbon” hĂ¡ um jogo inteligente lĂrico de antĂtese: enquanto a pessoa amada Ă© feita de metal, a voz lĂrica brinca ironicamente com a expressĂ£o “ossos de fita” e, contrastantemente, em força decide que o outro deve ir, usando de sinestesia para comparar as fitas coloridas mudando a cor para descrever a si mesma em transiĂ§Ă£o.
Se em “Bones of Ribbon” hĂ¡ a decisĂ£o de um rompimento, em “Who Am I”, uma das canções mais bonitas do disco e do ano, percebe-se a crise de identidade de alguĂ©m que esteve tanto no outro que se perdeu. A canĂ§Ă£o Ă© triste com riffs sutis, Rhodes e a voz melancĂ³lica de Hannah, que aqui parece encarnar toda a dor de quem sofre por ver quem ama partir, enquanto questiona o que sobrou de si mesmo.
“Who Am I to want you now you’re leaving/Who Am I to judge you now you’re leaving”
Estamos na faixa nove de um Ă¡lbum que contĂ©m dezoito faixas, e assim se percebe que talvez a duraĂ§Ă£o seja um dos Ăºnicos pontos falhos na execuĂ§Ă£o da obra, jĂ¡ que ao ouvir pode causar a impressĂ£o de que estĂ¡ tudo completo em execuĂ§Ă£o, arranjos e lĂrica, dando a entender que uma histĂ³ria parece ter chegado ao fim, narrativamente falando.
Mas ainda somos apresentados a “Leave the war with me”, em uma interessante performance vocal de Reid versando sobre uma possĂvel reconciliaĂ§Ă£o, apesar do entendimento de que talvez nĂ£o haja mais amor na relaĂ§Ă£o.
“Truth is a Beautiful Thing”, canĂ§Ă£o que carrega o tĂtulo do Ă¡lbum, nĂ£o poderia ser diferente: poderosa, apesar de instrumentalmente simples, a canĂ§Ă£o Ă© irmĂ£ de “Rooting for you”; trazendo elementos semelhantes sonoramente: voz potente e os pianos e programadores, a letra de “truth is a beautiful thing” dialoga com “Rooting for you” no desejo de estar com a pessoa amada, tendo uma Ăºnica diferença: na primeira canĂ§Ă£o o desejo existe apesar de fisicamente o outro estar perto, enquanto nesta a saudade Ă© literal, pois o outro nĂ£o estĂ¡ mais perto fisicamente.
Nas duas canções o conceito de verdade
Ă© construĂdo como o mais Ăntimo desejo de estar perto, de rebaixar-se a
ponto de querer estar perto da pessoa amada mesmo que ela nĂ£o ame de volta.
Essa Ă© a verdade almejada em Rooting for
You: “E para onde ela foi?/A
verdade nos deixou hĂ¡ muito tempo/E eu preciso dela hoje Ă noite pois tenho
medo da solidĂ£o com vocĂª”, e saudosamente cantada em Truth
is a beautiful thing: “VocĂª
pode tomar o meu lugar e ficar aqui?/Eu nĂ£o acho que vocĂª levaria essa dor/VocĂª
vai ficar de joelhos e lutar sob o peso/Ah, a verdade seria uma coisa linda/Ah,
a verdade Ă© uma coisa linda”.
Em “What a Day”, os sussurros e agudos de Reid introduzem a canĂ§Ă£o enquanto beats e rufes fazem cama para um piano, enquanto hĂ¡ uma espĂ©cie de raiva por enxergar o relacionamento como uma mentira. Gradualmente a mĂºsica vai crescendo e ganhando contornos Ă©picos. Uma bela revolta.
“Diferent breeds” continua a linha narrativa de fim de relacionamento e nos apresenta o encontro dos dois apĂ³s o rompimento. HĂ¡ constrangimento, lembranças e dor enquanto a mĂºsica vai sendo construĂda como uma boa canĂ§Ă£o pop. Possivelmente a voz lĂrica nĂ£o esqueceu do amado. Em “Control”, no entanto, hĂ¡ a primeira amostra de uma superaĂ§Ă£o (“E acho que isso Ă© controle/Estar esquecendo seu nome”), com sintetizadores que lembram canções pop anos 80 e riffs envolventes.
Por ser um Ă¡lbum em versĂ£o deluxe, a canĂ§Ă£o seguinte Ă© a demo chamada “Trials” e apenas em piano, versa sobre a complexidade de enxergar o fim do relacionamento, lidar com os sentimentos remanescentes e perceber que eles nĂ£o sĂ£o suficientes para sustentar um relacionamento: “Quando estou com vocĂª, eu nĂ£o estou sozinho/Ainda acredito que nĂ£o seja suficiente”.
“May the Best (church mix)” Ă© uma Ă³tima canĂ§Ă£o que nĂ£o deixa claro se o que estĂ¡ acontecendo liricamente Ă© uma reconciliaĂ§Ă£o e o medo de perder o momento em que se estĂ¡ junto de novo ou se Ă© a descoberta de um novo amor juntamente com o temor de que nĂ£o dĂª certo, mas claramente se percebe medo do relacionamento. De qualquer forma o que se percebe Ă© que hĂ¡ medo de amar, e que isso implica no risco da perda.
Logo apĂ³s “May the Best (church mix)”, por ser deluxe, hĂ¡ uma versĂ£o demo de Rooting for you, que atĂ© a este ponto parece ser a canĂ§Ă£o-chave de todo o conflito narrativo. A repetiĂ§Ă£o da mĂºsica dentro do repertĂ³rio, se atentarmos um pouquinho mais pode significar ainda mais: rooting for you Ă© o sĂmbolo do cĂrculo vicioso de alguĂ©m que nĂ£o consegue esquecer aquela pessoa que tanto amou um dia.
Finalizando o disco de forma grandiosa, temos a canĂ§Ă£o “Bitter sweet Symphony” em versĂ£o live, mostrando o grande talento do trio britĂ¢nico em executar suas canções ao vivo. “Bitter sweet Symphony” Ă© uma amarga canĂ§Ă£o que conclui o cĂrculo narrativo (e vicioso) de alguĂ©m apĂ³s um trĂ¡gico rompimento e que percebe que a maior dor entre todas as sentidas Ă© a de nĂ£o se reconhecer depois de tudo, Ă© a de perceber que a vida caminha para a morte e mesmo assim nĂ£o se tem uma clara ideia sobre quem se Ă© de verdade, principalmente quando se estĂ¡ perdido apĂ³s perder a identidade dentro de um relacionamento. “Truth is a beautiful thing” possui falhas de execuĂ§Ă£o por deixar o Ă¡lbum longo e talvez levar ao cansativo para alguns ouvidos (porque para mim passou rapidinho), mas consegue entregar um conceito coeso sobre o que propĂ´s fazer. A verdade Ă© dura de ouvir e paradoxalmente a verdade Ă© bonita, porque dentro do contexto da narrativa apresentada, ela Ă© o desejo mais profundo de que todo esse mar de lĂ¡grimas entre duas pessoas que um dia se amaram, nunca tivesse acontecido. Que bonita que Ă© a verdade, e que duro de saber que ela jĂ¡ se foi.
Destaques: Rooting for you, Hell to the liars, Who am I, Truth is a Beautiful Thing.
Nota: ****** (excelente!)
Ouça vocĂª mesmo! (de preferĂªncia enquanto lĂª).



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