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sábado, 24 de fevereiro de 2018




Para quem cresceu e convive com o meio religioso sabe que com o tempo, a repetição e o rito acabamos criando muita facilidade para a performance. 
Na performance não há espaço para o desconforto de se expor e nem o desconforto de ouvir o desabafo do que realmente se está sentindo. Simplesmente se assume um papel e finge-se que está tudo bem e assim o tempo passa até nos esquecermos de quem somos e no porquê cremos no que cremos.

Com o tempo, tudo o que acreditamos e pensamos não são mais colocados como fundamentos e significados para a existência, porque quanto mais perto da performance, mais longe da essência. 

E é exatamente sobre essa premissa que Confissões (2018), lançado no dia 5 de fevereiro pela Novo Tempo se ampara. 

O álbum é curto e contém 7 músicas em uma coesão temática e musical que fazem cama para as letras altamente honestas de Pillar, assim também como uma capa sugestiva de uma ovelha desenhada, talvez para representar o cerne lírico do disco: somos todos ovelhas desgarradas.



Reina, canção que abre o disco, apresenta um folk minimalista como base para uma oração sincera sobre a sensação de enfado de alguém que cansou de não ser aquilo que o Pai deseja, em um refrão que pede o Reino de Deus na vida do eu lírico. 

Fantasias, para mim a melhor canção do álbum, segue com o folk de Reina, tem a mesma a linha temática da canção "Sentido" do disco anterior de Jeferson que aborda a busca por identidade, mas aqui entendem-se as fantasias usadas como a capacidade performática da religião em contraste com o atual estado de quem canta: "meu quarto está uma bagunça". É de ouvir e sentir pontada no coração de tanta sinceridade exposta. 

Eu vilão, terceira faixa, difere sonoramente das duas primeiras e do restante do álbum por ser algo mais puxado para o pop/rock-canção, mas tematicamente ainda apresenta a honestidade das duas primeiras e por estar em uma roupagem mais rock, a letra é ainda mais enfática e ácida: "sou meu bandido/ meu ladrão/ meu assassino/ meu vilão, minha pedra de tropeço/mas eu não me quero mais/estou tentando dar adeus pra mim/e seguir só o Teu caminho".

Quem me dera, quarta faixa, acompanhada de arranjos de piano em uma melodia melancólica é a roupagem perfeita para uma espécie de oração quebrantada cheia de lágrimas e arrependimentos. Impossível não ser tocado pela sinceridade de uma oração que admite a dificuldade de alguém que quer ser diferente, mas nunca consegue chegar ao que deveria. Lentamente a canção que no começo é apenas uma balada com piano, cresce para uma balada pop/rock ainda colocando em evidência a melancolia da canção. 

Tempo, juntamente com Eu Vilão é a que mais se difere sonoramente das demais, mas mesmo assim percebe-se que há uma coesão sonora no disco que dança entre os pólos de folk e pop/rock. Tempo é mais uma canção nostálgica mas com uma instrumentalização mais alegre, que fala dos arrependimentos de não ter aproveitado o tempo para desfrutar de momentos importantes. 

Aprisco, possuindo relação temática e sonora com "how he love us" de John Mark McMillan, Aprisco talvez seja o resumo encontrado na capa e que explica o disco todo: é uma oração de uma ovelha desgarrada, prestes a desistir, cansada o suficiente para não conseguir mais voltar para o aprisco, até ser encontrada pelo amor insistente do Pastor. Talvez seja uma das melhores canções para explicar o que seria a Graça de Deus e o momento em que Ele nos encontrou. Com belíssimos arranjos de cordas juntamente com violões de folk e piano, é uma das mais belas e emocionantes do disco. 

Capital encerra o disco de forma esperançosa e funciona como o último estágio da narrativa descrita no álbum. Se no começo há a confissão, logo após há o arrependimento e a volta para o aprisco, que se finaliza com a esperança irredutível de que há um lugar onde não seremos mais tão inconstantes e viveremos felizes com Deus. A esperança sonora e lírica da canção leva-nos a uma sensação de alegria produzida não apenas pela letra, mas também pelo folk-pop da canção.

Apesar de optar por sonoramente contrastar o folk limpo e a balada pop/rock, o que talvez tenha soado como falta de coesão sonora de uma canção para outra, acredito que em muito tempo não escuto um disco de confissão cristã com tanta honestidade e sendo capaz de abalar com a estrutura filosófica da música cristã que prioriza a performance. 
Vale a pena ouvir, orar e se arrepender com "Confissões", quem sabe fazendo das orações sinceras de Jeferson Pillar, as nossas. 

Thai indica: Reina, Fantasias, Quem me dera e Aprisco.
Nota: 8,9.

sábado, 30 de dezembro de 2017


A primeira coisa que tenho a dizer acerca desta lista é que preciso escutar mais música brasileira - o que é estranho já que considero nossa música a mais criativa, sensível e incrível de todo o planeta - patriotismos e arrependimentos à parte, tenho a total ciência de que tenho uma lista maior de discos nacionais para ouvir e apreciar e que não me foi possível, visto que 2017 foi praticamente em inglês para mim. 
Por vergonha do tamanho da lista, alguns dos discos ouvi em cima da hora - como agora enquanto ouço Caravanas do Chico Buarque e analiso se gostei ou não gostei - outros foram reais companheiros e donos de replays eternos, então eis aí minha humilde lista dos "Melhores discos nacionais do ano" segundo a minha própria opinião, claro. 


14. Todas as bandeiras - Maglore



Se a música de Maglore pudesse ser sinestesicamente definida, talvez tivesse gosto de suco de limão gelado ou cheiro de praia de tão tropical e alegre que os baianos conseguem ser. E não é diferente com o mais recente disco da banda. Todas as bandeiras  vem com leveza em tempos difíceis de polaridades políticas, ideológicas e guerra de ódio por palavras aqui no país, evocando a unidade de todas as pessoas, todos os povos, todas as etnias para o que verdadeiramente os une.

13. Som e Silêncio - Hévio Sodré 



Contrapondo toda a estrutura do gospel em reproduzir clichês líricos e arranjos semi-prontos, Hévio Sodré apresenta um disco autêntico que, se não fosse a salada rítmica, poderia ser ainda melhor. Ainda assim consegue trazer letras autênticas e canções bem bonitas que passeiam entre o folk, rock 60's, mpb e pop.


12. Legrand - Legrand 




Este talvez seja o nome mais desconhecido da lista e foi fruto de uma indicação de uma amiga. O ep de 6 músicas e menos de 20 minutos nos mostra muita energia ao apresentar canções de pop alternativo e indie pop com pegadas de synths anos 80. 


11. Ayrton Montarroyos - Ayrton Montarroyos 



Talvez você conheça este nome da edição do The Voice e pensou certo. O pernambucano lançou o primeiro disco este ano contrastando com tudo o que se esperava de um segundo lugar de um programa de calouros exibido pela Globo. No lugar das baladas românticas pop ou do pop adocicado, Montarroyos apresenta um compilado de canções que mais relembram os melhores momentos do chorinho e samba raiz com uma poesia bem brasileira. Coisa fina! 


10. Lá vem a Morte - Boogarins





Demorei pra ouvir Boogarins por motivos de: sou resistente à psicodelia, mas fui mais forte que minha zona de conforto e ousei ouvir o novo disco Lá vem a Morte e foi uma acertada decisão. Presente em basicamente todas as listas de sites conceituados de música brasileira, o disco que contém 8 músicas entre ambientações instrumentais densas e abstratas, com letras bem construídas em uma poesia igualmente densa faz do álbum algo interessante no ano.


9. Gragoatá - Gragoatá 



Com muita dor na consciência pelo número pequeno de discos brasileiros que escutei, acabei lendo uma porrada de listas de melhores do ano nos sites que confio e fui conferindo disco por disco, analisando, tentando sentir o que ouvia até chegar nessa beleza aqui. Em uma delicadeza de canções produzidas à base de violões e percussão aliada a uma voz doce da vocalista, Gragoatá é pra sentir todo o frescor da nova safra da música brasileira (e que me fez ficar curiosa com todas as outras músicas do grupo). 

8. Vem - Mallu Magalhães 



Mallu Magalhães deu o que falar neste ano e, infelizmente, de forma bem negativa após um clipe que não contribuiu muito para a desconstrução de objetificação de corpos negros e principalmente após insinuar existir racismo reverso (????) em rede nacional. Por essas razões demorei para ouvir este novo disco da paulista e, apesar de todas as controvérsias e infelicidades, tenho que admitir que Vem tá em um nível altíssimo de qualidade, mostrando que às vezes a arte tem que estar acima das burradas do artista. 

7. Reversos - Felipe Valente



Mais um do selo LG7 do cantor Leonardo Gonçalves, Felipe Valente, bem conhecido no meio adventista lança seu segundo registro, dessa vez se afastando um pouco do pop/rock do disco de 2009 e aproximando-se mais de outras vertentes do rock, bem como a utilização precisa de arranjos de instrumentos de sopro com canções que brincam com o universo do pop/rock, folk-canção até post-rock como na canção que dá nome ao álbum.

6. A Última Palavra Feche a Porta - Plutão já foi Planeta



Leveza, alegria e tempo de sol, é isso que se sente ouvindo o novo registro da banda potiguar. Enveredando pelo indie-pop, folk-pop e pop/rock com letras de riqueza lírica com participações mais que especiais como Maria Gadú na canção Duas, mais bonita do disco na minha opinião. 


5. Quietude - Os Descordantes 




Apresentada há pouco tempo por uma amiga do Acre, no exato momento em que escrevo essa etapa da lista (na madrugada, comecinho do dia 29 de dezembro), os Descordantes vieram como aquele tiro no coração, sabe? Em meio a baladas românticas com pegadas de rock anos 70, estilo Roberto Carlos mais o brega antigo com cara das canções tristes e lindas dos Paralamas do Sucesso (como observou uma amiga) e até as melhores baladas do Jota Quest, a banda do Acre, apresenta um disco de beleza, pra ouvir chorando e sentindo cada letra, cada acorde e cada melodia. 


4. Um Corpo No Mundo - Luedji Luna




Recentemente ouvi essa obra-prima inspirada em uma playlist composta só de artistas pretos brasileiros e fiquei encantada com tudo o que senti ouvindo. Ancestralidade, poesia e doçura; percussão, coração e leveza são elementos-chave para Um Corpo No Mundo, uma obra que aborda o pertencer de um negro, e que coisa bonita quando quem é preto se identifica com a poesia, a resistência e a beleza de um disco tão coeso e bonito quanto esse. 

3. Young Lights - Young Lights



Apesar do nome em inglês e de também cantar nesse idioma, a banda é brasileiríssima de Belo Horizonte. Young Lights é recheada de camadas de pura beleza que flertam com post-rock, britpop e rock alternativo, lembrando os tempos de ouro de Coldplay nos discos X&Y e A rush of the blood to the head, por exemplo. É pra ouvir e chorar. 

2. Pra Doer - Tuyo 



Essa aqui tem lugar especial na lista e no meu coração não apenas pela relação de uma verdadeira fã (de encontrinho, de compartilhamento marcado e de grupo de whatsapp, pra você ter ideia) mas também e principalmente pela beleza que o Pra Doer veio aliado à toda a originalidade do trio paranaense. O EP com 4 músicas une o folk minimalista, os arranjos vocais cheios de doçura e harmonia das irmãs Lilian e Layane (pra você que curte The Staves isso aqui é uma loucura de bom) e os beats eletrônicos e arranjos instrumentais de Jean Machado. É pra ouvir com olho fechado e mão no peito, pode ter certeza!

1. Recomeçar - Tim Bernardes



O paulista conhecido por ser vocalista da banda indie O Terno distancia-se um pouco do humor ácido da banda para falar de dores, experiências pessoais e um caminho de redefinição de identidade em uma verdadeira obra-prima que alcança o primeiro lugar, com certeza, da lista. Recomeçar é profundo, honesto e incrivelmente belo com canções de um esmero instrumental (inclusive todos os arranjos assinados pelo próprio Tim) que vão de cordas até harpas como também de uma delicadeza lírica. Um verdadeiro tutorial de como ser um artista!

Abaixo você pode conferir minha playlist com cada canção que mais gostei de cada disco citado:




Obs.: como o critério para a seleção é de ter apenas lançamentos do ano, deixei de fora o álbum "Cordões Umbilicais" (2015) de Flaira Ferro, mas que também foi um mantra para mim este ano. 
Obs.2: Eu percebi nas minhas pesquisas que muitos, mas MUITOS discos nacionais saíram este ano e não tive tempo de ouvir todos, por esta razão há muito terreno pra se explorar em 2018.

terça-feira, 12 de dezembro de 2017

Como sempre, a música em anos difíceis vem nos salvando. E foram muitos lançamentos internacionais que fizeram valer a pena viver cada minuto de 2017; artistas de vários segmentos, vários discursos e com diversas histórias contadas em álbuns e EP's, sejam abordando temas subjetivos como amor, existência e sofrimento ou até temas sociais como racismo, desigualdade e empoderamento feminino, definitivamente 2017 foi um prato cheio para a música.

obs.: sinceramente, acredito que este foi o ano em que mais escutei músicas em toda a minha vida. Segundo o Spotify, ouvi mais de 27 mil minutos! Uau! Vamos às consequências desse meu ócio hahaha

25. ||| Spector - ||| Spector  


O grupo de adolescentes de Nashville, que já foi citado nesse meu post aqui, lançou este ep autointulado em julho deste ano e apesar de ser o primeiro trabalho da banda, já mostra maturidade e um frescor difícil de se ver em bandas iniciantes, lembrando os tempos áureos dos anos 70 e 80 em músicas pop com guitarras e timbres bem trabalhados. 

24. Slowdive - Slowdive 

A banda, que eu não sabia da existência até este ano, conhecida por seu som shoegaze teve um longo hiato, mas voltou com tudo este ano com canções carregadas de ambiência e timbres de guitarra que garantem uma experiência de imersão em cada canção executada. 

23. This Old Dog - Mac DeMarco 


O queridinho do indie internacional, Mac DeMarco, nos apresenta uma versão simples e bem estruturada de romantismo, com canções que na primeira audição pedem rapidamente bis para os ouvidos, numa versão menos sarcástica e mais apaixonada do canadense. 

22. Bathing Beach - Novo Amor 


A banda de nome em português, conhecida por seu som indie-folk minimalista (com muitas comparações compreensíveis à banda Bon Iver) nos apresenta a mais um EP com 4 canções, das quais o único pecado está na pouca quantidade. Essa é pra ouvir com os olhos fechados e mão no coração! 

21. Ti Amo - Phoenix



Quem me conhece sabe que tenho uma certa queda por músicas tristes e, por esta razão, é até curioso para mim o fato de eu ter gostado tanto de um álbum tão "alegre" quanto Ti Amo da francesa Phoenix. A resposta talvez esteja no fato da minha queda também por sintetizadores anos 80 nesse indie-pop delicioso com referências retrô apresentado pelos franceses. 

20. Painted Ruins - Grizzly Bear


Não conheço a fundo a banda indie Grizzly Bear, e essa foi a minha primeira e até agora única experiência com o grupo, mas garanto que foi uma gentil e alegre descoberta ouvir 11 canções e me viciar na delícia de clipe de Mourning Sound. 

19. Crack-Up - Fleet Foxes


Ouvir Fleet Foxes nunca é uma experiência muito fácil para mim, e o novo álbum da banda de folk e pop-barroco veio confirmar este fato e incrivelmente, como nos melhores álbuns, o aparente desconforto com as músicas foram dando lugar a uma apreciação sensorial incrível, principalmente com músicas como Third of May/Õdaigahara. 


18. Sleep Well Beast - The National



Mesmo eu, particularmente, gostando mais do disco anterior da banda, não posso deixar este grande álbum de fora. Algumas músicas como Guity Party e Carin at the Liquor Store, que são incrivelmente lindas, me obrigaram a colocar Sleep Well Beast como um dos melhores discos internacionais de 2017.

17. Harry Styles - Harry Styles


Sim, este é aquele menino da One Direction que me fez cair da cadeira e deixar de preconceito bobo, como eu expliquei na resenha que escrevi. 
O primeiro disco do inglês é um primor de produção, uma bonita homenagem ao rock'n roll anos 70, com um álbum que não saiu dos meus ouvidos por semanas a fio. 

16. All Things Work Together - Lecrae



Lecrae é um dos grandes nomes do Rap consumido pelo público cristão dentro e fora dos EUA, mas o álbum All Things Work Together, lançado esse ano veio para desestruturar o stablishment da música cristã norte-americana ao apresentar um disco que foge dos padrões ao, por exemplo, abordar temas como a hipocrisia do cristianismo, a supremacia branca, o racismo estrutural em uma acidez crítica impressionante, além de ter convidado o rapper (não cristão, inclusive) Ty Dolla $ign para colaborar em uma canção e utilizar samples de uma música do artista folk-barroco Sufjan Stevens na maravilhosa Can't Stop me Now (Destination). 

15. Mercury & Lightning - John Mark McMillan



Se Lecrae causou lançando seu disco, imagina John Mark McMillan conhecido por ser um dos grandes nomes do movimento worship no mundo e ser um dos maiores líderes de louvor? Enquanto todo o seu público esperava mais um álbum de músicas para serem cantadas nos cultos de domingo, McMillan surpreendeu ao apresentar um álbum sombrio, esteticamente conceitual, com críticas severas à hipocrisia da igreja norte-americana e uma angústia em limbo de dúvidas, que se não soubéssemos a religião do artista, provavelmente questionaríamos se não seriam lamentações de um agnóstico. Tudo isso somado aos clipes lançados do álbum, em especial da canção que dá nome ao disco, Mercury & Lightning, que certamente é uma das melhores obras de 2017. 

14. Tell Me You Love Me - Demi Lovato



Demi Lovato, uma das grandes estrelas mundiais, conhecida por seus trabalhos na Disney Channel e também pelos diversos problemas pessoais que estamparam revistas por todo mundo, finalmente se encontrou musicalmente e isso foi uma grata surpresa para este ano de 2017. Apesar de liricamente não se ter nada muito profundo, é na sonoridade que Tell Me You Love Me acerta em cheio. Se antes víamos uma Demi perdida entre o pop e o rock-teen (como no caso de Kelly Clarkson e Avril Lavigne), agora ela finalmente percebeu que sua voz e personalidade musical combinam perfeitamente com o R&B e Pop-R&B em um disco cheio de arranjos sensacionais que misturam instrumentos de sopro (como positivamente visto no registro anterior, Confident) mais sintetizadores típicos dos anos 80 e guitarras de blues num dos melhores álbuns pop do ano. 

13. The Velvet Face - Halfnoise



The Velvet Face, EP de 5 canções foi um dos meus maiores acompanhantes neste ano. O registro do artista Zac Farro, conhecido por ser baterista da Paramore (já falamos dele por aqui) é um prato cheio de referências setentistas em um indie-pop que apresenta elementos de psicodelia e vestígios de dance dos anos 80. Cool!

12. Freudian - Daniel Caesar 



Lembro como hoje da primeira que escutei Daniel Caesar e foi lindo ouvir o primeiro disco, aí me vem 2017 e me presenteia com Freudian, que apesar de não ser melhor que o primeiro, na minha opinião, apresenta canções incríveis como Best Part (em colaboração com a incrível H.E.R) e Get You. 

11. As You Were (deluxe edition) - Liam Gallagher


Pra matar a saudade do Oasis, em clima de nostalgia, Liam Gallagher trouxe um álbum pra 2017 que, com certeza vale a pena ser escutado. São baladas de rock incríveis pra quem quer ouvir e chorar pedindo a reconciliação dos irmãos Gallagher. 

10. Melodrama - Lorde




Apontado por inúmeros sites de respeitos como o melhor álbum de 2017 e tendo uma invejável nota 91 no Metacritic além do selo Best New Music do rigoroso site de crítica musical Pitchfork, Melodrama chegou na minha vida como uma boa surpresa. Eu não tinha ouvido o disco anterior e meu primeiro contato com Lorde se deu com este aclamado álbum com produção precisa do novo queridinho do pop (ou indie-pop) Jack Antonoff, sendo todo construído a partir do conceito da experiência de uma pessoa pré, durante e pós festa, revelando os maiores anseios e angústias da geração millenials e rendendo canções incríveis como The Louvre. 
Apesar de ter gostado muito do álbum, confesso que o primeiro continua sendo meu preferido. 


9. A deeper Understanding - The War on Drugs 



Eu sempre ouvi falar muito de The War on Drugs, mas nunca tinha parado para escutar e entender o porquê de tanto ovacionamento (experiências que este ano também passei com Grizzly Bear e Slowdive). Escutei as 10 canções de A Deeper Understanding e entendi completamente, me rendi aos encantos da banda americana e me comprometi a ouvir toda a discografia.

8. Turn Out the Lights - Julien Baker





Se você quer sofrimento, veio para o lugar certo. São mais de 10 canções interpretadas pela cantora Julien Baker de Memphis, TN nos EUA nos apresentando o mais profundo que existe em um artista quando decide vomitar suas dores e mostrar toda a sua vulnerabilidade. Só escute se não estiver passando por maus bocados. 

7. H.E.R - H.E.R



Este é o primeiro álbum da jovem cantora de R&B que atende pelo nome de H.E.R. Canções incríveis mostrando o que há de melhor no new R&B e o porquê dela ser quase um ser onipresente nas novas produções do gênero nos EUA. Vale muito a pena!

6. Ctrl - SZA



Assim como H.E.R, SZA é novata e desponta com seu primeiro disco solo já garantindo lugar nos sites especializados como um dos melhores álbuns do ano. No começo eu escutei para entender o porquê de tanta reverência e após algumas tentativas, entendi perfeitamente: SZA não tem medo de expor o que sente, não tem medo de ousar no que seria o alternative-R&B e como resultado foi um dos discos mais escutados por mim neste ano. 

5. DAMN. -  Kendrick Lamar



O público, a crítica e todas as pessoas que apreciam boa música reverenciam Kendrick como uma das maiores vozes e representantes do Rap mundial nos nossos dias. E não é pra menos. No álbum mais elogiado do ano, estampando as principais revistas e sites especializados em crítica como o melhor álbum de 2017, DAMN. é cru, aponta as dúvidas e angústias, critica o stablishment do próprio sistema de música do rap e alça um dos momentos mais criativos em arranjos de sua carreira. Um dos motivos de estar na minha lista pessoal em uma música: Pride. SIT DOWN! BE HUMBLE! 

4. After Laughter - Paramore



E por falar em Zac Farro, a banda Paramore, depois de inúmeros problemas internos e um quase fim (como relatado na resenha que escrevi sobre o After Laughter) renasceu das cinzas rompendo completamente com o pop-punk que fez com que se tornassem conhecidos mundialmente e mergulhou nas dimensões da pop music e new-wave anos 80 contrastando com letras pesadas sobre depressão, insegurança e medos que são típicos dos jovens adultos e representam quase toda a geração Millenials. 
Obs.: segundo o spotify, Paramore foi a banda que eu mais escutei em 2017. Não é pra menos né? A menina emo de 2009 em mim ainda não morreu hahah.

3. Process - Sampha 



Conhecido por suas contribuições com artistas de grande renome como Solange e Drake, Sampha nos presenteia com um dos melhores discos do ano, provando toda a sua versatilidade em um registro que garante lágrimas por sua delicadeza e vulnerabilidade, assim também como rende palmas pela grande criatividade num gênero que é definido pela crítica como neo-soul. 

2. Aromanticism - Moses Sumney 



Moses Sumney recentemente escreveu um artigo na Pitchfork criticando as revistas e sites especializados em música por classificar artistas negros apenas na caixa do R&B não dando o devido valor aos diversos pretos artistas que criam novas fórmulas, mas acabam não alçando reconhecimento pelo feito. E é em cima da originalidade que seu mais recente trabalho Aromanticism é construído. Não há caixas que comportem a criatividade de Sumney, suas referências vão do jazz, pop-barroco até o minimalismo em uma explosão sensível de canções que definitivamente tocaram meu coração este ano. 

1. Truth is a Beautiful Thing - London Grammar



London Grammar não apareceu nas maiorias das listas de melhores álbuns do ano, e sinceramente isso não tem tanta importância, porque no meu coração eles definitivamente ocuparam o primeiro lugar em 2017. O registro de Truth is a Beautiful Thing com quase duas horas de duração (escrevi sobre o disco aqui) é um dos álbuns mais bonitos que já ouvi na vida. Musicalmente, poucas coisas me deram tanto prazer quanto ouvir, por exemplo, os instrumentais aliados à incrível e poderosa voz de Hannah Reid na INCRÍVEL Hell to the Liars. 


Estes foram os meus companheiros (internacionais) do ano. Quais foram os seus? Quais músicas te salvaram este ano? 

Obs.: fiz uma playlist com todas as melhores músicas dos álbuns citados acima mais alguns nacionais que serão pra o próximo post de melhores álbuns nacionais do ano. Dá uma ouvida aí! 


quinta-feira, 17 de agosto de 2017

Da esquerda para direita: Rafael (guitarrista), Pablo (guitarrista e vocalista) e Diego (baterista)

Nooma, um nomem aparentemente incomum, vem do grego pneuma que significa “sopro de vida”. Essa explicação foi feita pelo guitarrista Rafael, integrante da banda que recebe o mesmo nome, para o blog Rock for Jesus (você pode conferir aqui essa entrevista). Curiosamente é essa a sensação que se tem após ouvir o som da banda carioca formada por Pablo Teixeira (guitarra e vocal), Rafael (Guitarra) e Diego(bateria), especificamente do primeiro trabalho do trio: “Nooma” (2015), um EP produzido pelo Duda Andrade, contendo cinco faixas. A sensação de vitalidade e injeção de vida é carregada não apenas nas letras que versam sobre devoção e adoração, com estruturas essenciais de salmos modernos, mas também pela atmosfera etérea de post-rock em quase todas as músicas.
Com influências claras em timbres de guitarra de bandas como Explosions in the Sky, Nooma nos apresenta um EP coeso que propõe uma linguagem e lírica de fuga do que é palpável e físico para um universo de ideal, o metafísico, mas com uma clara evidência de ainda estar com os pés no chão. É esperança, é alívio, mas antes de tudo é resgate do céu para a terra, a partir das angústias terrenas.
“Dos montes”, inicia esse pedido de socorro. É a partir da angústia do salmista moderno, que evoca o salmo 121, que a viagem do ep começa. Apesar dos conflitos internos de não haver respostas no aqui, os arranjos delicados e a introdução mais ou menos extensa de calmaria, preparam o ouvinte para a fé de saber que o clamor será ouvido. Da fé nasce a esperança;da esperança nasce o coração grato, pronto para agradecer apesar de não ver as respostas concretas. E isso é a adoração expressa nas estrofes: “eu elevo os meus olhos/ para os montes/ de onde me virá / o socorro / o meu socorro vem/ do senhor / aleluia, aleluia” e na bonita certeza que é o ápice da canção em grito e progressão sonora: “na minha angústia/ eu clamo ao senhor / e Ele me ouve”.
Capa do EP autointitulado (2015).

Em seguida temos a belíssima “Onde estou”, com uma linda e longa introdução de cordas e violão, seguida de bateria e riffs de guitarras. Aqui a interpretação e efeitos de reverb na voz de Pablo, encarnam o cerne da música que é o conflito entre estar e estar. Enquanto enfrenta os dias maus, a voz lírica, apesar das inconstâncias dos dias, não abala a fé, por entender que seu relacionamento com Deus não se baseia em circunstâncias, mas no lugar onde se está, em coração e alma. Os momentos finais em que a frase “eu estou em Ti” é repetida diversas vezes, traz não apenas a certeza de que as coisas terminarão bem, pela companhia dEle, mas a decisão de mesmo em angústia e inconstância, querer estar nEle.
Geralmente uma outro é continuação da canção anterior, e “Outro”, terceira faixa,  surge como essa continuidade de “Onde estou”, mas diferente desta, a canção se contrapõe ao sufoco proposital, apesar de esperançoso e insere um ambiente de alívio a partir de uma instrumentação crescente e melodicamente etérea, como se a fé militante da canção anterior tivesse produzido o estado em que se propunha: a paz de estar em Deus.


Com marcações de bateria e vocais sobrepostos, juntamente com os riffs oitavados de guitarras, “Mais alto”, quarta faixa do ep, ao contrário das outras, não constrói um universo sonoro de fuga esperançosa, mas algo perto do grito de guerra, por ter como base acordes menores. Apesar disso, liricamente, não há menção aos momentos difíceis ou a qualquer obstáculo terreno, tudo é centrado na conversa do ideal, o plano superior. O caminho percorrido até aqui faz dessa música, a começar pelo título, um lugar diferente das outras por já estar neste lugar, que não é físico, mas espiritual. Um lugar mais alto. Este lugar é o da certeza do amor constante e insistente de Deus, que faz com que todas os outros detalhes sejam dissipados.
Iniciando com parte da estrofe (“aleluia, aleluia...”) da primeira música (“Dos montes”), a última música, “Amanheceu”, instrumental, indica o estado de completa paz espiritual como destino de toda a jornada construída durante a narrativa do EP. Aqui os singelos acordes e efeitos reverb de guitarra, juntamente com todo clima causado pelos pratos sutis do baterista Diego, nos transportam para este lugar de paz nos primeiros minutos da canção para logo após explodir sonoramente em uma sequência de acordes e ritmo que remetem a um frenesi de alegria que nasce da esperança: sensação de que realmente o sol nasceu e a manhã chegou. A canção termina em fade out, indicando que imageticamente ainda estará soando... Eterna.
O lugar de paz, que aqui pode-se dizer a eternidade, depois da longa noite que é viver neste mundo, é a busca, a luta e, por fim, a conquista de toda a jornada lírica do EP, e é nessa faixa que o nome “Nooma” ganha contornos grandiosos que respondem a questões centrais: o propósito da banda e o propósito do EP. Se o sopro de vida do Éden nos formou e fincou no nosso ser a existência, continuará sendo este fio que nos prende à Eternidade o motivo de nossa existência e a garantia que um dia o alívio, o bálsamo e a paz espiritual serão pra sempre.


Nota: ***** (ótimo!)

Recomendadas: "Dos montes", "Outro" e "Amanheceu". 

Ficha técnica:

Produção: Duda Andrade & Nooma

Mixagem e masterização: Bernardo Fragale

Baterias: Diego Vicente

Guitarras: Rafael Loureiro, Pablo Teixeira

Vocais: Pablo Teixeira 


Ouça você mesmo: