segunda-feira, 17 de outubro de 2016


Questões e conceitos acerca do que seria a Arte e, consequentemente, obra de Arte, são debatidas desde que nos entendemos por gente, e como produção essencialmente humana, a definição para o conceito termina sempre por beirar o aberto, o incompreensível.
Mas há de se destacar que uma das grandes características que difere o objeto da obra de arte é o que aquela provoca no que aprecia. Um objeto é usado para o cotidiano e, como diria o crítico literário Octávio Paz, a Arte transcende o objeto e, de forma violenta, faz com que aquela produção nos insira além da praticidade do dia-a-dia. Por muitos anos, calcados sob uma perspectiva artística greco-romana, o entendimento de obra de arte se resumia no Belo e Bom, o sublime. Apenas o sublime em suas categorizações de valor é que definiria uma obra artística, mas este tipo de pensamento, com o passar do tempo veio a enfrentar a aparição do grotesco, a utilização de temas considerados negativos na produção artística.
O que se entende hoje por Arte antes compreende que o conceito depende da mentalidade histórica de um povo e que, por esta razão é um livro aberto, mas ainda conserva a definição primitiva de que o objeto só transforma-se em Arte quando provoca algo em quem aprecia, seja no aspecto belo ou grotesco, sublime ou reflexivo. Arte instiga.

E dentro da inquietante constatação do que nos provoca uma verdadeira Obra de Arte se encontra o álbum de estreia “Pedra em Carne” do músico Gabriel Iglesias, integrante do selo LG7 (assim como Estevão Queiroga e Felipe Valente) no casting da Sony Music Gospel. Iglesias, como artista, apesar de transparecer sua confissão cristã em toda a sua obra, assim como no próprio conceito do álbum “Pedra em Carne”, muito se afasta do que seria a linguagem do Gospel (que mais do que um mercado, é um movimento dentro do cristianismo evangélico brasileiro). O que Iglesias traz em sua obra, instiga, provoca e choca um público acostumado com fórmulas prontas em músicas que compreendem chavões religiosos e modelos instrumentais pré-concebidos, e por esta razão, acredito que, definitivamente, o jovem músico não se encaixe na linguagem e nem na “estética” do Gospel brasileiro. Isso é perceptível com a grande discussão em cima do videoclipe conceitual (belíssimo) da música “Jeremias”, dirigido por Matheus Siqueira com locações de se encher os olhos na Catalunha.



Trazendo um repertório construído a partir de uma linha narrativa baseada em Jeremias 31:33, o disco, antes do conceito, revela a alma musical de Iglesias, tendo todos os instrumentos executados por ele mesmo, assim como os arranjos e letras das músicas (em algumas letras, contando com a participação do irmão Lucas Iglesias, teólogo e também músico) e influências do eletrofolk, post-rock e indie-folk. A alma musical de Iglesias se escancara a partir da vulnerabilidade exposta na própria forma de se gravar e produzir, quase de forma caseira, experimental, orgânica, tal qual “For Emma, forever ago” (2008) de Bon Iver. O caminho da vulnerabilidade á plasticidade dos grandes estúdios se deu conscientemente por ser um suporte adequado à poderosa tônica narrativa, divida em três partes: a Lei, a Pedra, a Carne; três compartimentos que revelam a vontade de Deus e a resposta humana diante da voz de Deus.
A discussão existencial do profeta diante do que era e do que poderia ser,a partir do momento que obedecesse à voz de Deus é a grande mensagem do disco.O que Iglesias propõe, choca, instiga e provoca não apenas na linguagem musical mas por apresentar o ser numa perspectiva agonizante que nos coloca como o próprio Jeremias angustiado por carregar uma mensagem de destruição a um povo que amava e não se reconhecer digno de tal mensagem. Jeremias é a figura simbólica que representa o homem que só é quando obedece, que só existe porque ouve ao Deus que promete a aliança de encarnar a Lei e de nos habilitar para Sua vontade. Mais do que canções, há uma pregação expositiva de todo o plano Eterno para o homem e o quanto isso implicará na sua concepção de si mesmo diante do mundo, contrapondo-se ao existencialismo de Sartre, “o ‘você é’ antecede o ‘eu sou’”, encarnar a Lei, crendo por fé no Deus que se fez Carne para que isso fosse possível, é admitir que existir de verdade é, antes de tudo, uma constante tensão.

NOTA: 4,5/5

sexta-feira, 7 de outubro de 2016

Menestrel (2014) - foto divulgação.

Recentemente escrevi sobre a estranha e fantástica sensação de pertencimento a um povo, a um pedaço de chão e o quanto que isso nos constrói e nos modela como pessoas (aqui!). Ainda dentro dessa perspectiva regionalista, trago aqui uma obra que é uma daquelas coisas que a gente fecha os olhos pra assimilar toda a profundidade e beleza em cada detalhe, temeroso de perder a grandiosidade do que se está desfrutando.
Numa genial junção entre o erudito e o popular - conceitos controversos no campo da história da arte - Roberto Diamanso, traz o seu excelente segundo trabalho: "Menestrel" (2014) com onze músicas que vão de arranjos elaboradíssimos de piano e rabeca à baiões autênticos e traços da cantoria popular do Nordeste brasileiro, podendo facilmente entrar em termos de qualidade aos grandes nomes da música brasileira.
Como estudante de Letras, tenho o grande privilégio de estudar sobre Cultura e Literatura popular nordestinas, o que me possibilita tentar conhecer profundamente o que já é corriqueiro por aqui em poesia, música e formas de expressões, principalmente nos sertões dos estados. O disco de Diamanso é um grande painel de tudo o que é vivo e bonito na nossa cultura, mas ainda traz mais novidades: as boas-novas do evangelho. 

Com o título de "Menestrel", fazendo referência ao poeta europeu medieval, tal como o trovador, que em música contava grandes narrativas, Roberto Diamanso, alagoano, pastor, poeta e músico, se oferece, nesta obra, como o cAntador de histórias em plena praça pública; tendo como fio a fé no Deus que inspira toda poesia. 
Somos convidados a entrar nesse grande universo de cantoria com a belíssima Coelet, que para mim já configura como a mais bonita do disco por seu teor poético de fazer menção ao capítulo 12 do livro de Eclesiastes enquanto mostra a fugacidade da vida, e o quanto ela é pequena se os olhos não estão fixados no Criador. 
A segunda canção, Razão do Universo, traz os dedilhados de viola que muito lembram as canções de grandes nomes de cantadores como Elomar e Xangai, além da marcação belíssima da rabeca intercalando com arranjos de piano e o triângulo trazendo reminiscências do baião. Lindíssima em todos os sentidos, a letra desta canção põe como centro a figura de Cristo como o Rei de todos. 

Faina, a terceira do disco, apresenta o homem comum que acorda com o galo, trabalha com o sol e come do fruto de seu suor com o sorriso de seus filhos, tendo como sonoridade o forró de rabeca, acordeon, zabumba e triângulo. 
Menestrel, canção que traz o título do álbum, é a carta de manifesto, apresentando em um baião o propósito de toda a temática lírica: professar a fé em Cristo.

Trova nova, fazendo ponte entre as canções dos trovadores europeus e os cantadores regionais, traz uma embolada, modalidade da cantoria nordestina que apresenta o pandeiro e a voz como únicos instrumentos. A história contada na embolada narra a saga do homem comum na vida tendo como objetivo o Louvar a Deus (como Roberto comumente apresenta seu estilo musical). 
Patativa, sexta canção, traz a viola de cantoria com a temática do drama da patativa diante do descaso com a natureza. 
Pote de coaxar é a sétima faixa, mas que, ao contrário das anteriores, tem como foco a declamação de um poema com solos belíssimos de baixo acústico e piano clássico.

Com a temática do quanto somos tecidos para um relacionamento com quem nos tece, Um tecelão e um tear, nos presenteia com um baião estilizado, próprio e autêntico.
Logo após temos a canção Aquele que te guarda que, com o objetivo de ser o acalento para alma, traz versos que abordam o descanso em Deus, confiando que Ele cuidará de nós. 
Já ao fim do disco, as duas últimas canções apresentam-se como gêmeas esteticamente, carregando a mesma introdução e os mesmos arranjos de rabeca, violinos, baixo acústico, piano clássico e violões, mas diferenciando tematicamente. Ao que parece, Sonho bom, tematicamente nos mostra o propósito de toda a criação, o relacionamento com Deus, as pessoas e a natureza antes da entrada do pecado. O sonho bom que um dia foi realidade.


Eu vivo sonhando, última canção do disco é uma grande conversa com a morte, a grande consequência do pecado, que assolou o relacionamento humano com Deus, com seus semelhantes e com a natureza, tendo como pano de fundo a esperança de que, apesar desta criação estar caída, ainda virá o dia em que tudo voltará a ser como era antes, tal qual um sonho bom. 

Ao terminar de ouvir tudo o que Diamanso tem a nos dizer, encravado com os pés em seu chão de homem nordestino, imerso em uma cultura onde a poesia está no cotidiano e os versos são escadas para sonhos diante da mediocridade da vida, podemos, enfim, acordar do estado de total estupefação
perante a absurda obra que não está na língua de todos, mas inspira e encanta os ouvidos de quem para pra ouvir o menestrel cantar.

Nota: 5/5

Ouça você mesmo:

terça-feira, 27 de setembro de 2016




Existem álbuns que te tocam por muitas nuances; belos arranjos, belas melodias, letras bem construídas e existem álbuns que te desconstroem, te fazem e refazem, te reinventam. 
Coloco o álbum Pronto pro mundo (2015) do Daniel Caldeira na segunda categoria, definitivamente. A cada letra, cada arranjo, embarcamos em uma viagem reflexiva, dolorosa sobre quem somos, sobre quem achamos ser e o quanto isso pesa na nossa relação com o outro. 
Já na primeira faixa, Pronto pro mundo, que carrega o título da obra do carioca, somos convidados a contemplar a nós mesmos dentro de um mundo onde cada pessoa é um universo... Qual universo criamos para afirmarmos nossa identidade? 
"a vontade de ser/é o ser da vontade" os versos cantados após uma explosão instrumental que mais parece um grito de alguém que chora, anuncia para quê o álbum veio: questionar o ser em relação ao mundo. Na minha opinião a mais dramática, intensa e bonita de todo o disco.
Moldura é a segunda faixa e abre o leque das inspirações do indie-rock gringo de bandas como a francesa Phoenix assim também como a presença de sintetizadores que lembram sons dos anos 80. Traz uma letra que sugere, ao meu ver, a diferença entre o que se sente e o que se aparenta.
Kassel, mais um indie-rock com guitarras que beiram ao flutuante e efeitos sintetizadores traz uma letra com o quê existencial da lírica do artista durante a trajetória musical do disco.

Meu coração é um dragão, quarta faixa do disco, para mim configura como uma das mais bonitas do disco - uma das três mais incríveis, no mínimo - é uma balada com guitarras elétricas fazendo a base que um violão faria (tal como o Keaton Henson faz em suas canções) e trazendo uma letra poderosa: quem que tem força diante da poesia? quem que se salva? 
É interessante salientar a riqueza lírica da escrita do Daniel Caldeira, com letras que beiram ao abstrato surrealista de tão subjetivas e além-realidade que são. 
Além, traz um rock com toques de pop, dissertando sobre o tédio da existência na terra que é chata demais, sem novos horizontes, principalmente para alguém que não se arrisca. Talvez o medo de viver, seja o medo de amar, conclui a canção (ou seria um começo?)
Todo mundo e nós  para mim é a que mais traz influências da Phoenix em seu pop/rock, que pode sugerir uma audição leve, mas que carrega a temática que pode englobar o disco todo: quem pensamos que somos quando nos achamos prontos?


"No fim do dia/todo mundo mora/no olho do furacão". Tudo o que criamos a fim de nos escrevermos como prontos, acabados e perfeitos, desmorona no fim de um dia e isso nos iguala a todos, inclusive aos que nos afastamos. "No fim do dia/todo mundo mora/e acha que pode explicar/escrever o que diz/numa tábua qualquer". Que pancada! Não ser dono da verdade é admitir que não é dono de si, e talvez a constatação dessa verdade seja a dolorosa tônica de toda a obra. 
"A história do meu carro (que na verdade é uma metáfora dos meus relacionamentos) é uma divertida canção que trabalha a história de uma carro como metáfora para abordar o medo diante dos relacionamentos.
"Não sei" , a última canção, ocupa, na minha opinião, como a segunda mais bonita do disco e é uma música grandiosa, em lírica e em instrumento. Divide-se em duas partes: a primeira fala sobre a sede por algo além daqui. A letra versa, ao meu ver, sobre a busca transcendental por algo (que pode ser Deus) a partir dos ritos, e como o rito indica a noção de "saber por onde estar indo", levando ao fracasso. Quando a busca pelo transcendental toca o chão e encarna na vida, na incerteza e quando nos jogamos na experiência com este algo além de nós, talvez, de fato, o encontremos. A segunda parte da canção é o que se pode deduzir da própria experiência dessa busca, coberta de incertezas sobre quem se é e sobre as expectativas da vida em relação ao que deveríamos ser. Um escancaramento sincero de alguém que admite não ter todas as respostas. 
Talvez a grande tônica do disco seja exatamente a de esmiuçar nossa hipocrisia diante da existência. Criamos significado para acobertamos nossa falta de respostas. Admitir que não temos é aceitar que não estamos prontos (e assim descobrimos que o título da obra ou é ironia ou é paradoxo), que talvez nossos castelos de certezas sejam feitos de papel e quando isso acontece o que nos resta é entender que nossa vontade de ser a despeito da realidade da vida e do universo que é cada um, mora na definição do que somos, de fato.

Ouça você mesmo: 


p.s.: Coloquei o álbum Pronto pro mundo como um dos doze que você PRECISA ouvir, mesmo que não seja tão conhecido, clique aqui para conferir! 

NOTA: 4,5/5

quarta-feira, 21 de setembro de 2016


É absurdamente estranho parar para pensar em conceito de nação, ou mais especificamente, patriotismo. Como é que podemos sentir orgulho ou nos sentir parte de algo apenas por pisar em um chão? Como denominamos de nosso o samba, o forró, a feijoada e o futebol (dentre tantas outras coisas) apenas porque foram produzidas em um determinado espaço dividido por linhas imaginárias. É absurdamente estranho notar que essa identificação espacial (e cultural) nos forma como indivíduos no mundo. 
Adentrando na nação é ainda mais louco, principalmente num país como o Brasil que mais parece abrigar vários países, como criamos nossa identidade a partir do nosso chão por causa dos nossas regiões geográficas, estados e cidades. O que faz de uma pessoa, baiana? Que tipo de ser humano é formado a partir da identificação do gaúcho ou do carioca com sua cidade/estado? É dentro desse arcabouço de lugar e identidade que se situa minha impressão da obra "O quinze" de Rachel de Queiroz. 
Venho entrando em um estado de identificação com a terra de que sou fruto de forma tão profunda, que ao ler a obra da cearense - nos anos 10-30, anos duros para o nordestino - não consegui não me emocionar com cada situação descrita, com cada drama vivido, como se eles, de alguma forma também fossem eu. 



O sertanejo nordestino representado pelo Chico Bento, pela Cordulina, pela professora Conceição e pelo vaqueiro Vicente é uma figura tão próxima de quem nasce no Nordeste que é quase impossível não sentir a dor do retirante do século XX como se fosse a nossa; uma mágoa que nos constrói, que nos modela como humanos, estranhamente, apenas porque pisamos o mesmo chão e compartilhamos do mesmo sotaque, da mesma cultura... Tais elementos tornam-se substitutos do sangue familiar que une. 
Mas antes de pincelar a identidade construída pela narrativa, nada mais justo do que mergulhar na própria narrativa da cearense Rachel de Queiroz, que na época só contava os 20 anos de idade. Rachel faz parte da segunda fase do Modernismo brasileiro, conhecida como "geração de 30" tendo Graciliano Ramos e Jorge Amado como também representantes no viés da prosa; "O Quinze" pode ser enquadrado como romance modernista regionalista por carregar traços de identificação com uma região do país.  
O modernismo, além de pregar uma grande ruptura com as tradições passadas, defendendo os versos livres e a liberdade criativa, também nasceu d'uma vontade de reconhecer a brasilidade do país e o que nos tornava essencialmente brasileiros na nossa maneira de produzir arte; evidentemente o romance regionalista entra dentro dessa vontade de se reconhecer brasileiro apesar da diversidade de vários "brasis" dentro de um Brasil. Rachel emerge dessa vontade de construção de identidade nacional a partir da diversidade de culturas no país e também, acredito, que até majoritariamente, com o intuito de denunciar o descaso com a região nordestina, politica e historicamente explorada e subjugada, mesmo com toda a contribuição para com a História, Política e Arte nacionais. O que acontece nos romances regionalistas é que a necessidade de se reconhecer como brasileiro parte da consciência de que o ser brasileiro mora no nós, várias culturas, vários povos que merecem ser reconhecidos como brasileiros e respeitados como gente. É um grito de visibilidade para o invisível.



A história descreve a seca dos anos 15 no povoado de Quixadá no Ceará, nos apresentando personagens que carregam traços do contexto social em suas formas de se expressar, agir e pensar. 

O enredo se divide em dois planos; o primeiro se foca no romance - ou quase romance - do vaqueiro Vicente, homem da terra, largo sorriso e bruto, com sua prima Conceição, mulher culta, citadina e professora. O abismo intelectual e geográfico que os separa pode servir como representação da dicotomia tão difundida na Literatura: campo vs cidade; ou ainda mais: tal oposição geográfica constrói a linha em que teço este texto: identidade a partir da terra. Inevitavelmente somos construídos a partir da nossa terra, nossos costumes e nossa cultura. Outro ponto importante ainda sobre a personagem Conceição é sua relação com sua avó: tradicionalista, presa a pensamentos do patriarcado; tal relação revela a oposição entre o velho e o novo, a mentalidade vigente e as novas ideias vindas do socialismo e feminismo que eram temas das leituras de Conceição. 
A avó de Conceição não concebe o fato da neta "perder" tanto tempo em livros quando poderia estar muito bem casada. Conceição se coloca em uma posição a frente do seu tempo ao, sutilmente, escolher sua autonomia intelectual, mesmo que ainda enraizada de preconceitos raciais. 
O grande dilema escancarado pela relação dos primos implica em perguntar se o amor, tantas vezes idealizado em muitas histórias, principalmente na Literatura, ainda continua em pé ante os preconceitos e mazelas sociais. O amor vencerá o estigma social? O amor vencerá a dura seca que a todos devora na fazenda Logradouro, nos arredores de Quixadá e em todo o sertão nordestino?
E é a mesma seca, que a todos vê, a todos atinge - ricos ou pobres - que molda o destino do vaqueiro Chico Bento, o outro lado da grandiosa história de Queiroz. 
Chico é que vê sua humanidade se esvaindo, seu direito de ser gente morrendo aos poucos, ao ponto em que a seca lhe leva a terra e o obriga a enfrentar o drama de migrar para o Norte do país junto com a família, em busca de emprego. 
Sua esposa Cordolina e seus cinco filhos são construídos, assim como Chico Bento, como partes intrínsecas ao cenário de fogo, galho seco e barro: frágeis, fortes, tristes e resilientes. A seca não os alterou apenas enquanto corpo, mas esta drástica mudança no corpo  modificou suas formas de se relacionar humanamente. Tanto é que a dor de ver os filhos morrendo, pouco a pouco vai se naturalizando como se a fome a todos transformassem em bichos: não conscientes da perda afetiva. 
Talvez a grande mensagem trazida por este segundo lado do enredo de O Quinze seja o mais poderoso porque traz, de forma mais enfática que a primeira parte da história, a questão do que nos faz ser gente. 
Chico Bento, Cordolina, Vicente, Conceição, Dona Inácia são representações deste grande questionamento e, de forma profunda, denunciam a alienação de direitos humanos básicos vindos de uma má distribuição de renda, assim como o descaso regional para com uma parte do país mostrando que pouco a pouco o ser gente morre por questões de pura desigualdade social. 
O drama de Chico Bento, o diálogo entre gerações representado por Conceição e dona Inácia convergiram para um mesmo ponto: o Nordeste de ontem e o de hoje e o que isso acarretou como identidade construída para cada pessoa nascida aqui. 
A dor do sertanejo, assim como os preconceitos raciais, xenofóbicos e intelectuais são temas que ainda nos acompanham enquanto povo brasileiro. Rachel de Queiroz pôs o dedo na ferida do Brasil, ao mesmo tempo que reverberou a voz sertaneja como um dos grandes ápices de pertencimento de quem vê num espaço delimitado por linhas chamado de região Nordeste, um chão que não só se pisa, mas também se molda e revive. 
Retirantes  - (1944) - Portinari


sábado, 10 de setembro de 2016

Eu sempre tive a curiosidade como amiga e é por causa dela que sempre quis descobrir coisas novas além do que eu já sabia. 
Então desde que me entendo por gente - e graças a Internet - venho catando coisas novas na área de música, de livros, de filmes, e, eu não sei você, mas eu sinto uma alegria difícil de traduzir quando eu escuto, leio ou assisto alguma obra não tão conhecida e me apaixono desesperadamente. O mérito não está no fato da obra ser pouco conhecida, mas sim de que, por ser pouco conhecida, meu coração e sentidos experimentam, por si só, o prazer de ter algo verdadeiramente belo sem a influência de alguém ou algo ditando o que é ou não bom artisticamente.

E nessas andanças nesse mundo magnífico que é a internet, conheci estes músicos que irei agora compartilhar com você, adiantando logo que a lista não está em ordem de preferência (seria difícil demais para mim). 
Posso dizer, com certeza, que a maioria desses artistas não possuem contratos com gravadoras, não tiveram tanto incentivo financeiro para produzirem seus discos, mas fazem o que fazem de forma sincera e autêntica.

p.s.: Existem álbuns aqui que não escutei mais de uma vez, mas mesmo não cabendo dentro de meu gosto pessoal, são surpreendentes por oferecem muita beleza e qualidade. 

1. Varandeiro (2014) - Guilherme Scardini

Varandeiro é um EP lançado no ano de 2014 do músico e estudante de arquitetura Guilherme Scardini. Contendo 6 músicas tendo como base instrumental o violão, percussão e voz, o disco faz jus ao título ao trazer um clima de familiaridade com quem o aprecia, quase como se estivéssemos ouvindo as histórias de Scardini enquanto tomamos um café na varanda de sua casa.

Músicas que Thai indica: Fim de Tarde; O Absurdo; Eu vim do Céu.


2. Então Morramos (2013) - Simonami




O nome da banda curitibana formada por Lilian e Lay Soares, Jean Machado, Alexandre Spiacci e Luis Fernando Diogo é bem peculiar e tem significa "Sim, meu amigo" em francês, e ao mesmo tempo é uma homenagem a um estrangeiro amigo chamado Simón da banda que incentivou o trabalho dos curitibanos, significando também "Simon, ami" ou Simón, amigo. Que doce esse duplo significado, não? E talvez doçura seja o que se pensa sentir ao ouvir o som dessa banda, mas engana-se quem pensa que está prestes a ouvir algo leve; este álbum da banda, que infelizmente anunciou uma pausa sem data para retorno no ano passado, é algo extremamente doloroso e preciso. Simonami nos conta histórias tristes de forma doce, aliás, quem disse que a dor não pode ser bela?

Músicas que Thai indica: Fantasma; Janela; Pedido ao Pássaro.





3. Pronto pro mundo (2015) - Daniel Caldeira



Não tem aqueles discos que cada vez que se ouve, mais se entende algo novo, mais se sente e mais se descobre um verdadeiro mundo de significados? Este segundo disco de carreira do músico carioca Daniel Caldeira pode definir muito bem estas sensações. O que está aqui é reflexão pura, desconstrução pura, sinceridade pura... A sonoridade do álbum (que se diferencia bastante do primeiro disco Azularanja) traz influências do indie da banda Phoenix e até da psicodelia da Tame Impala. Não tem como sair indiferente. 

Músicas que Thai indica: Pronto pro mundo; Meu coração é um dragão; Não Sei.


4. The Mozões (2015)The Mozões



A primeira coisa que eu senti ao ouvir o som dessa banda foi a sensação de estar entre amigos, e talvez seja essa a grande sacada do coletivo The Mozões, uma banda de indie do estado de Alagoas: fazer música despretensiosa entre amigos. E não é que o resultado ficou genial?
Não dá para não se envolver, se deliciar e se sentir numa praia ensolarada do nordeste com esses caras. 

Músicas que Thai indica: Júlia 2; Amor, agosto; Sombra.



5. Suave Dança (2013) - Israel Costa


Mais um presente do nordeste, dessa vez do Maranhão é este EP de 2013 do músico Israel Costa contendo 7 faixas cheias de acordes bem tocados que vão desde bossas à canções confessionais carregadas com doses grandes de rock alternativo e psicodelia. 

Músicas que Thai indica: A última música; Smooth Dance; Under Tree Song.




6. Totem (2015) - Gui Sales


Esse é um dos EP's que a gente escuta e fica por horas querendo chorar por dentro do tanto que é tocado. É este sentimento que me inunda toda vez que escuto Totem lançado no ano passado por Gui Sales. As músicas são viscerais e trazem o mais fino do que pode ser considerado indie folk e folk-pop. 

Músicas que Thai indica: Piscine Molitor; Ninho; Com quem se quer casar.



7.  EP Live Session (2016) - Flortilha em Alta-Terra



Flortilha em Alta-Terra é um daqueles projetos inusitados que resultam em obras verdadeiramente lindas. Formada por músicos dos estados de Pernambuco e Paraíba, a banda gravou o EP Live Session, que como o próprio nome denuncia, é o registro ao vivo. 
O som é minimalista e cheio de poesia, mostrando as influências do folk e nova-mpb de Phill Veras e Rubel com autenticidade própria (e sem deixar de lado o sotaque). 

Músicas que Thai indica: Kaé; Aqueles que caminham pelo vento; Me acreditar. 


8. Sobre estar vivo (2012) - Philip Long 



Philip Long é uma daquelas descobertas de música profunda e extremamente bem produzida que a gente se pergunta como que não tem tanto reconhecimento. Este álbum poderoso do artista é o último da sequência de quatro álbuns no ano de 2012 (sim, quatro álbuns), sendo o primeiro completamente em português, já que o  restante é composto em inglês . O repertório traz sete músicas que versam sobre a busca de sentido no primitivo, do que nos faz humanos e, sobretudo o que nos motiva a continuar sobrevivendo em meio a tanta desumanidade em melodias grandiosas de folk minimalista. Simplesmente lindo!

Músicas que Thai indica: Raízes no Quintal; Ciclo Natural;  Amálgama.




9. Quebra Azul (2013) - Baleia


Talvez seja o som mais difícil de ouvir e entender dessa lista. Seja pela grandiosidade instrumental, seja pelos arranjos inusitados de violinos, guitarras, percussão e vocal, ou pelas letras altamente rebuscadas, a banda carioca de som alternativo (quase experimental) com nome inusitado não pode passar despercebida nessa lista. Talvez seja uma das mais conhecidas da lista por ter tocado no Lollapalooza ano passado e ter recebido críticas positivas quanto sua perfomance  e sonoridade.  
O disco de estreia Quebra Azul traz oito faixas densas e doses de abstração e senso contemplativo. 

Músicas que Thai indica: Casa; Motim Despertador. 



10. Miocárdio (2016) - Barro 



Miocárdio é o primeiro disco do músico Barro, eu o conheci recentemente através de sugestões de amigos. O clima do disco mescla o som alternativo com raízes pernambucanas com influências do rock setentista recifense, música latina, brega e o que pode ser considerado rock tropical.

Músicas que Thai indica: Vai. 



11. Graveola e o lixo polifônico (2014) - Graveola e o lixo polifônico


Graveola e o lixo polifônico (que nome diferente, não é?) é uma banda brasileira de Minas Gerais, que mistura sons tipicamente brasileiros com ritmos inusitados produzindo um som único. Neste álbum em específico, o que há de mais brasileiro é imprimido em 13 músicas que vão do samba até o tango e valsinha. Uma riqueza!

Músicas que Thai indica: Dois lados da Canção



12. Limbo (2014) - Rua do Absurdo


Rua do Absurdo é uma banda recifense que particularmente me traz impressões que vão do estranhamento a reflexão. O som dos pernambucanos é bem parecido com o que a banda Baleia produz no sentido de choque causado pela complexidade de seus arranjos e letras, por isso também é extremamente difícil de ouvir. Não dá para definir o estilo da banda, mas arriscaria dizer que bebe muito do que chamam de psicodelia nordestina.

Músicas que Thai indica: Dança a um fim; Ortopedia.



E você, tem mais alguma sugestão de álbuns ou artistas desconhecidos do grande público, mas que merecem reconhecimento? Comente aqui embaixo! 


quarta-feira, 3 de agosto de 2016


Toda criação artística apresenta uma visão de mundo, isso é evidente.  Há um status quo nas produções quanto à cosmovisão e principalmente quanto à realidade de quem é o ser humano.
Frequentemente em livros, músicas, filmes, novelas e séries o universo é mostrado como um campo de guerra entre o bem e o mal; o conceito de bem é demonstrado por tipos ou estereótipos: o pai de família, o religioso, o oprimido, enquanto o mal é representado por outros tipos: o bandido, o amoral, o opressor. É fácil se identificar com os bonzinhos dos enredos porque ali há o ideal do que queremos ser, ou do que achamos que somos. A maioria de nós é oprimida, é gente de “família”, é religiosa e por sermos assim, queremos um mundo que faça jus às nossas boas ações, um mundo onde o nosso vilão - que é geralmente o nosso oposto – seja punido e aniquilado.
O que é geralmente esquecido é que essa visão maniqueísta é mais farsa do que realidade; é uma ação muito mais digerível sentir-se no direito de separar o joio do trigo porque assim não nos envolvemos emocionalmente com nenhum de nossos “inimigos”; apatia facilita aniquilação. É quase impossível entrar na mentalidade maniqueísta o fato de que possivelmente o bandido que me assaltou hoje mais cedo tem um histórico de abandono, vulnerabilidade social e miséria. Não. Pensar nessa possibilidade me aproximaria desse rapaz e eu, despida do título de vilão não ousaria me aproximar emocionalmente desse rapaz. Tampouco seria possível essa “aproximação” dentro do campo maniqueísta se minhas atitudes condenáveis de pequenas corrupções diárias partissem do mesmo pressuposto que faz o assassino dizimar vidas inocentes. Inadmissível.
Espantoso para quem pensa assim é notar que, talvez, essa visão complexa e inadmissível seja mais próxima da realidade do que a concepção descrita no status quo das produções artísticas. Somos tão vilões quanto as caricaturas desenhadas em filmes de Marvel, mas pensamos não ser justamente porque não nos adequamos às características que fazem um vilão estereotipado.
E é justamente nesse emaranhado humano de emoções, corrupções e crueldade que o universo artístico de Mr Robot mergulha. A história à princípio pode parecer simples: um jovem rapaz chamado Elliot Alderson, com dificuldade em se envolver socialmente, é programador de uma empresa de segurança cibernética durante o dia e à noite hackeia a vida de todas as pessoas que, de alguma forma, tem contato; promovendo com isso pequenas ações de proteção para com as pessoas que se importa e denunciando crimes de cafés que frequenta e até do quase namorado de sua terapeuta. Elliot posteriormente conhece um grupo de hackers chamado Fsociety que tem como objetivo entrar no sistema da maior empresa chamada E-Corp a fim de promover uma revolução econômica levando o sistema mundial a uma distribuição de renda mais justa.
Enredo simples para se ler, mas o enfoque da trama vai mais além: mais do que as conspirações do estado e a denúncia contra o sistema capitalista, o que mais me impressiona nessa produção é construção dos personagens. Elliot não cabe apenas no antissocial curioso e revoltado com o sistema: Elliot é o rapaz que se esconde na mascara do não envolvimento profundo com as pessoas para fugir de sua personalidade perturbada e de seus traumas de infância, assim também como a morte de seu pai cometida indiretamente pelas escolhas criminosas de condições de trabalho dos empregados da E-Corp. Elliot, na sua busca por justiça, também promove ações que facilmente seriam dadas a um vilão. Angela, sua amiga, não é apenas a moça legal que tem a mãe também morta pelo contato com a radiação no trabalho da E-Corp; também é a que dissemina vírus na empresa que trabalha para não prejudicar a si mesma e é a que, em muitos momentos, contradiz a causa pela qual tanto luta. Do outro lado está Tyrel, o executivo da Evil Corp que tem todas as características de vilão, mas que apresenta sintomas de insegurança consigo mesmo, solidão e carência por visibilidade. Notou aonde quero chegar? Todos os personagens nos fazem perceber que eles não estão distantes de nossa realidade e que a linha que divide vilões e mocinhos parece não ser tão larga.
Não apenas no universo das artes, mas também na política e em algumas visões religiosas, há uma tendência em dividir o mundo entre os bonzinhos e os malvados. Vamos entrar no exemplo das ideologias políticas conhecidas como esquerda e direita. Na direita, ou em grande parte de suas diretrizes, acredita-se que se o homem estiver livre das garras do Estado, será, de fato livre economicamente, logo, livre para aproveitar boas condições da vida. Acredita-se também, no conservadorismo político, que conservando a tradição, e apegando-se quase religiosamente a ela, haverá a possibilidade de se livrar das inovações que possam trazer malefícios a ordem de paz; o homem é capaz de tudo isso por sua liberdade, segundo essa visão. Estamos diante de uma meia verdade, que não é todo mentira, mas com certeza não entra no campo da verdade. O que passa despercebido é que por mais livre economicamente que o homem possa ser, seu coração sempre estará tendencioso a burlar o sistema, a corromper-se com a quantidade de dinheiro que adquiriu com seu “próprio” esforço e a explorar o que não conseguiu subir nas escadas da meritocracia. Grande parte da esquerda, por outro lado, acredita que o homem é passivo diante do sistema corrupto e opressor: ele não escolhe o mal, mas as suas condições sociais o levam a situações extremas diante de sua pobreza, e por essa razão é que muitos dos que se envolvem na criminalidade são parte das minorias: pobres e negros. Também acredita que é possível reduzir todos os malefícios e desigualdades a partir de uma revolução econômica e do fim da propriedade privada em um mundo onde todos viverão harmonicamente sem tomar o que é necessário da vida do outro. Utopia e, mais uma vez, meia verdade. Mesmo que houvesse uma revolução onde não houvesse propriedade privada, será mesmo que essa revolução daria conta da fome insaciável de todo ser humano em acumular pra si riquezas? E será que todo criminoso que passou por uma situação de extrema pobreza entrou na vida do crime APENAS por sua situação econômica? (deixo claro aqui que eu concordo com o fato de que o sistema desigual promove a facilidade de pessoas em estado de vulnerabilidade social entrarem mais facilmente na vida criminosa, mas o que quero reforçar é que ninguém é completamente passivo; também há o campo das escolhas que contribuem para a criminalidade).
Nenhum sistema econômico, ao meu ver, dá conta da realidade de quem verdadeiramente somos. Não estamos livres e não somos totalmente passivos diante de um sistema. A bíblia não mostra um homem inteiro como as ideologias tentam pregar, ao contrário, apresenta um homem partido dentro de um mundo também partido. (como na canção "Bom e mau" do Estevão Queiroga no álbum "Diálogo número um" que fiz a resenha aqui ).
O homem, segundo a bíblia, é capaz de coisas grandiosamente belas e boas ao mesmo tempo que tem o mal explodindo dentro de si como um vulcão em constante erupção. O bem que há em nós é fruto da Imago Dei ou Imagem de Deus. É essa substância divina que nos traz a consciência dolorosa de que somos sim iguais ao bandido que muitas pessoas querem morto. É essa substância que nos faz ver Hitler como um ser humano que em muitos momentos da vida promoveu boas ações e apresentava facilidade em se envolver com crianças; é essa substância que faz com que grandes invenções para cura de doenças antes tidas como incuráveis sejam possíveis, que faz com que muitas pessoas carentes sejam assistidas através de ONGs humanitárias... É essa substância que propicia a construção de coisas extremamente belas nos campos da Arte em geral com grandes músicas, grandes filmes, belas escuturas...  
Por outro lado, mesmo possuindo a Imago Dei, a bíblia também nos mostra como vilões sanguinolentos, línguas ferinas, pés apressados para o mal, inimigos de Deus... Vilões. E o mais impressionante: nascemos sob essa condição. O mal não é apenas o que fazemos, o mal é o que somos naturalmente. Somos capazes de criar bombas atômicas e arrasarmos com países inteiros, somos capazes de contribuir para o trabalho escravo, de acumular riquezas e explorar o pobre, de consolidar o racismo e entre tantas outras formas de preconceito e exclusão social.
Como seres completos possuindo duas naturezas opostas, vivemos em um mundo complexo que não é dividido por linhas baseadas em nossos conceitos de bondade e maldade; o mundo não está tão dividido quanto imaginamos.
A bíblia e posteriormente Mr Robot apresentam uma face nossa que reprimimos, que lutamos para não enxergar e nos chamam à consciência dolorosa de quem somos de verdade: maus e bons, vilões e mocinhos, pecado original e Imagem de Deus.