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quarta-feira, 14 de fevereiro de 2018




Desde a poética de Aristóteles acerca das modalidades artísticas gregas, a comédia era vista como algo inferior à tragédia por não causar o efeito catártico, não privilegiar a jornada do herói por uma causa nobre e comum e por não argumentar sobre temas profundos. Acontece que, com a mudança dos tempos e dos estudos acerca das modalidades artísticas, Bakhtin enxergou na comédia algo revolucionário: o aspecto da carnavalização, que é o poder de desconstruir todas as convenções sociais, criticando-as ou potencializando-as. É da comédia o poder de colocar o dedo na ferida e, de fato, transformar ou incomodar o status quo. É da comédia que nasce a desconstrução do herói, reduzindo-o ao que é: um ser humano cheio de conflitos, pego em situações comuns, mas tão cheias de emoção quanto qualquer tragédia. 
Pensando na importância da comédia e do poder criativo de não ter regras, muitas obras no cinema e na tv foram revolucionárias para ler o seu tempo e nos dar uma visão ampla sobre quem somos a partir da comicidade e da condição de rir das nossas misérias, indico hoje duas comédias em exibição (e, claro que existem muitas outras que devem até ser bem melhores do que as que vou citar, mas ainda estou para assistir) que, com certeza merecem sua atenção.


The Good Place (NBC)
A produção da NBC, exibida pela Netflix aqui no Brasil, criada por Michael Schur e estrelada por Kristen Bell, está dando o que falar não apenas pela temática em si, mas pela originalidade na trama. Acompanhamos aqui a história de Eleanor Shellstrop que após a sua morte vai para o Lugar Bom, que diferente das convenções religiosas de divindade, à priori, privilegia e contabiliza (literalmente) as ações humanas em uma moral absoluta. Dessa forma, existe também o lugar ruim para onde são enviados os humanos que não fizeram boas ações na terra e não contabilizaram boas ações. 
Tudo estaria ótimo se não fosse um porém: Eleanor definitivamente não merece estar no lugar bom e percebe que foi colocada lá por engano, agora o que resta é fazer de tudo para não ser descoberta. 

Primeiro motivo para ver: Vida pós-morte

A forma como a vida pós-morte é apresentada, foge completamente do lugar comum e instiga o espectador a descobrir o que está acontecendo e a discutir assuntos relacionados a eternidade da alma. Dificilmente você verá este tópico de forma tão original quanto nessa série. 

Segundo motivo para ver: Moral e existencialismo

Incrivelmente, como falei no início do texto, a comédia tem o poder de discutir assuntos profundos enquanto nos faz rir. E The Good Place é campeã nisso quando nos põe a pensar sobre a raiz de nossas ações, sobre a filosofia moral de Kant, a consciência humana e as consequências de nossas escolhas na vida de outras pessoas, o que de fato seria uma ação boa ou ruim e ao mesmo tempo nos faz dar gargalhadas com referências à cultura pop e críticas às situações atuais. The Good Place também argumenta sobre o significado de nossas ações, de nossa autoconsciência e de nossa índole com a constatação da morte e do fim e com isso traz questionamentos próprios do existencialismo. 

 
Terceiro motivo para ver: Plot Twists 

Acredito que esse seja um recurso que faz com que você, DE FATO, assista a The Good Place. Dificilmente em comédias o recurso da reviravolta é utilizado. Uma sitcom, que é o formato de comédia de situação na qual a maioria das comédias se ampara, usar o plot twist pode tornar a situação incomum e não crível, mas em uma comédia como The Good Place, cujo o tema e a execução são completamentes originais e fora de comum, a reviravolta (plot twist) é um recurso que alavanca a qualidade da série e instiga o espectador a cada vez mais conhecer e se surpreender com o que está para acontecer, já que é completamente imprevisível. 

Jane, The Virgin (CW)

Produzida pela pequena emissora CW, com duas temporadas das quatro (até agora) exibidas pela Netflix, Jane, The Virgin é uma adaptação americana da novela venezuelana Juana, la virgen.  
A série acompanha a história de Jane Gloriana Villanueva, uma garota de 23 anos que sonha em ser escritora e mora com a avó Alba Villanueva, uma imigrante (ilegal e sim, a série falará sobre isso de forma muito sensível ) e sua mãe Xiomara Villanueva, uma mulher livre que mais parece ser filha de  Jane por suas imprudências.

<3>Aos 10 anos, Jane fez uma promessa à avó de que só perderia a virgindade após se casar e isso nos leva ao centro da história. 
Jane é noiva do detetive Michael Cordero, um rapaz que a ama e respeita sua promessa, mas em um belo dia, quando está para fazer um procedimento normal com sua ginecologista, que é Luísa Solano, uma alcóolatra, Jane acaba sendo inseminada artificialmente por engano.
A partir daí a vida de Jane muda e ela se torna uma mulher prestes a ter um filho, mesmo virgem! (vê que loucura hahaha).

Primeiro motivo para ver: Elenco latino
 A maioria dos atores presentes na série, da produção e da direção são de origem latina e só por este fato é importante assistir, já que estamos em uma série com muita representatividade disposta a tocar em assuntos espinhosos num país como os EUA, construído por imigrantes, mas altamente xenófobo. Jane é interpretada por Gina Rodriguez, que foi a primeira mulher latina a ganhar um globo de ouro (inclusive por essa série). Sente o poder! (um dos melhores personagens da série, Rogélio de La Vega, e, na minha opinião, um dos personagens mais engraçados de todas as comédias, é interpretado pelo Jaime Camill, que já é um rosto conhecido pra nós brasileiros, principalmente os que, assim como eu, cresceram com as novelas mexicanas exibidas pelo SBT.).

Segundo motivo para ver: Dramalhão de telenovela latina
  
Estamos em uma série que, como falei no início quando apresentei o aspecto carnavalesco do gênero comédia, utiliza-se do exagero da telenovela latina (e de que é fruto, já que é uma adaptação cômica de uma novela dramática venezuelana) para tirar sarro de si mesma como uma espécie de paródia, rendendo boas gargalhadas ao mesmo tempo em que nos prende com o que realmente dá certo em telenovela: a SUPER reviravolta, o exagero de emoções mesmo em situações pequenas e o triângulo amoroso. Ou seja, Jane the virgin é uma série que ousa rir de si mesma utilizando a fórmula da telenovela latina, seja para tirar sarro da confusão que a própria história é ou seja para nos emocionar e nos surpreender com a doçura e alta carga dramática das histórias e dos surpreendentes desfechos. Um prato cheio!

Terceiro motivo para ver: A CRIATIVIDADE TÉCNICA!


 Sim, eu escrevi esse terceiro motivo em caps lock porque acredito que esta seja a razão mais urgente para assistir Jane, The Virgin. Eu digo com toda a certeza  que poucas vezes eu vi tanta originalidade e criatividade na forma de contar uma história como eu vejo aqui. A sinopse da série já é chamativa por si (aliás É UMA GRÁVIDA VIRGEM, NÉ!!!), mas a forma como a história é contada é de encher os olhos. 
Por um lado nós temos o aspecto SUPER telenovela de um narrador INCRÍVEL que conta a história, participa, intervém e dinamiza a trama de uma forma que se torna uma espécie de personagem. Por outro lado nós temos cores vivas, expressivas e alegres no cenário, nas roupas, nos detalhes, na arquitetura, para indicar o que seria o aspecto latino da série. Também se tem a imaginação criativa da personagem Jane que possibilita para a direção a adição de comentários escritos na tela, de personagens imaginários, de alter-egos, todos convivendo e sendo instrumentos para o fluxo de consciência da personagem que a todo tempo convive com a realidade da história contada. O que a série faz é exibir através desses recursos técnicos de roteiro, direção, edição e montagem, o imaginário sonhador e apaixonado de uma personagem como Jane Villanueva, que representa o imaginário latino de sonho e paixão, utilizando do que mais amamos: as novelas e todas as suas quase absurdas reviravoltas para contar uma história sobre nós!
Essas foram as três razões para duas comédias que eu estou completamente viciada no momento. 


segunda-feira, 27 de novembro de 2017



A história parece clichê: um escritor frustrado, em crise de meia-idade, casado com uma mulher por 25 anos com a qual tem 4 filhos, de repente se vê envolvido, numa viagem de família ao interior, com uma garçonete, também casada.

Seria realmente uma típica novela das nove se não fosse pela genialidade criativa na forma como a série é escrita, dirigida e no quanto que a narrativa nos oferece mais do que estereótipos: são dores intensamente humanas, são histórias visceralmente humanas.
A série segue a estrutura de contar a história por duas perspectivas de um mesmo acontecimento por episódio e este o grande diferencial: não há repetição de cenas, de acordo com a visão do personagem alguns detalhes mudam, seja na roupa, seja nos gestos, seja na impressão causada, seja no toque... É a memória, com toda a sua fragilidade, fugacidade e traços de nossa visão de mundo, que desenha a linha que nos conduz à história.
É a memória que constrói não apenas uma cena, mas a visão daquele personagem sobre si mesmo e sobre o outro.
Por essa memória descobrimos Noah Solloway, um homem bem casado que ama Helen, sua esposa, e os quatro filhos, mas se vê num limbo existencial quando não atinge suas próprias expectativas como escritor e como pessoa e quando não atinge as expectativas da família de Helen, rica e controladora.  Noah é honesto, fiel e entende que casou com o primeiro amor da sua vida, mas há vestígios em si que carregam um desejo incontrolável por algo a mais e é neste momento em que Alison aparece.
Pela memória de Noah, Alison é descrita como uma mulher sedutora, que faz do mistério, seu charme, livre e encantadora, e que não sente nenhum remorso ao buscar trair seu marido... Nas partes em que estão juntos, ela é a provocadora, ele é o bom moço que "resiste' à tentação.


Mas é aí, justamente aí que The Affair alcança outros patamares. A visão de Noah não corresponde exatamente à realidade e ao mesmo tempo é a realidade. Não estamos falando de uma série que apresenta uma verdade objetiva, mas de várias verdades sendo construídas pela memória, pela visão de mundo dos personagens e pelo que parece ser mais conveniente a cada um omitir, esconder, distorcer...  Nenhuma perspectiva é real, e ao mesmo tempo todas são.
Ao conhecermos Alison de sua própria perspectiva, entendemos que ela é uma mulher que carrega dentro do peito a dor de ter perdido o filho em um casamento que parece não estar mais se sustentando, já que ambos estão devastados pela culpa, pela saudade e pela sensação de luto. Alison é insegura, não tão confiante e não consegue ver sentido na sua vida em Montauk, em todo modo de viver praiano, no seu emprego, na sua casa, lugar de recordações dolorosas e nos olhos, corpo e tatuagem do marido, Cole, por tudo lembrar seu pequeno filho Gabriel, que morrera num afogamento. A atuação de Ruth Wilson interpretando Alison é uma das melhores coisas já vistas e nos faz sentir, como numa pontada de faca no coração, cada fio de dor que envolve Alison até quando não consegue pronunciar palavras por hesitação.


O affair entre Alison e Noah, refúgio para suas cansadas vidas é um retrato de algo mais profundo que acontece nos dois personagens: ambos anseiam por algo a mais e pouco a pouco vão tomando escolhas para saciar a sede do sentido que, como um furacão, destrói violentamente cada pessoa ao redor de suas vidas e até aquilo que pensavam ser.
Com o passar do tempo percebemos que na felicidade do amor proibido dos protagonistas, máscaras caem: o desejo, a mentira, a traição, a manipulação transformam-se em instrumentos para obter essa felicidade que, na visão dos dois, não pode mais ser sufocada pelos parâmetros construídos até aqui e que tinham causado tanto sofrimento a ambos.
Por esta razão, Helen e seus quatro filhos se veem em uma estrada intensa de sofrimento, de sensação de perda, de mágoa reprimida entre os filhos com os pais, de verdades sobre si mesma refletidas na explosão imoral do marido. Helen vê que não o controla mais e que todas as suas expectativas de felicidade e amor, em um casamento que começou como conto de fadas, não era aquilo que pensava. Pouco a pouco a frustração, a sensação de não ser suficiente, a insegurança vão tomando conta de uma mulher que antes era admirada por sua força e autocontrole. Seus filhos, principalmente os mais velhos, Martin e Whitney vão cada dia mais tomando decisões que refletem suas respectivas mágoas contra Noah em uma violência de silêncios e insensatez como resposta ao casamento desmoronado dos pais.



O rastro de destruição causado pelo affair também revira a vida já bagunçada o suficiente de Cole Lockhart,  um homem aparentemente seguro, profundamente introspectivo, que carrega nos olhos a dor da perda de seu filho, mas sublima a saudade com uma aparente vontade de seguir em frente, o que é motivo de mágoa em sua esposa, Alison: a dor não é falada, o desconforto, o luto não são assuntos e sempre parece haver entre os dois um abismo de entendimento, de cumplicidade que desagua em um casamento de desconhecidos solitários após a perda do filho. Cole ama Alison de forma quase espiritual, mas os dois nunca conseguem romper com a barreira que o luto causou em suas vidas. Como resultado, o vemos cada vez mais conformado com a "maldição" de sua família, de seu nome, de sua vida, cada vez mais entregue ao seu próprio silêncio, onde só os olhos conseguem dizer de verdade o que sente. 




E mais uma vez, a memória faz o seu papel fundamental na estrutura narrativa, enquanto, mais para frente, precisamente na segunda temporada, vemos a perspectiva de Alison sobre Cole: ela o vê como alguém duro, frio e impessoal (às vezes até assustador), na perspectiva de Cole ele se enxerga cada vez mais afundado na tristeza por ter perdido algo que ele pensava ser para sempre. Alison enxerga-se insegura, enquanto vê Noah um homem confiante, charmoso e capaz de lhe dar aquilo que procura dentro dela; Helen vê os defeitos de Noah, mas o perdoa insistentemente, em um amor que rasteja aos pés; Noah enxerga em Helen uma mulher presunçosa, e talvez por seu peso de consciência, omite todas as suas qualidades para sentir-se bem. 


E é nesse ínterim que apesar de facilmente odiado por todos que assistem, Noah se apresenta como o personagem, juntamente com Alison, mais complexo da narrativa: o afã de ser grande, de conquistar tudo, de superar a frustração de 20 anos adequando-se ao que os outros queriam dele, de afastar-se em mágoa do pai e ao mesmo tempo transformar-se no que mais detestava, que Noah nos presenteia gradualmente com sua derrocada; da glória da ilusão de juventude com Alison, da glória do ego amaciado por elogios e pelo amor de uma mulher mais jovem até a plena consciência de toda a dor que causou naqueles que mais amou na vida e do quanto esses caminhos traçados não oferecem opção de volta. 





O poder da memória na narrativa é mais do que a lembrança pura e simplesmente; é se utilizando da fragmentação dessa memória que The Affair entrega um dos melhores dramas da atualidade, porque é na fragmentação que, assim como o crítico literário Antônio Cândido diz, nós somos capazes de criar ficções. E se tudo é ficção o que é verdade? E se o romance escrito por Noah baseado em seu caso com Alison é, como incansavelmente é defendido por ele, uma ficção, o que seria a realidade de fato?

Não existe a verdade objetiva nos nossos trajetos aqui na vida; não existem os bons moços e nem os maus, na aparente história clichê de novela, The Affair escancara um drama cru, honesto e humano sobre nossa condição, nosso ego, nossas escolhas como efeito borboleta e nossa busca desenfreada pelo sentido de existir.

sexta-feira, 15 de setembro de 2017

ATENÇÃO: CONTÊM SPOILERS!




Baseado na série de livros "As crônicas de gelo e fogo" de George R.R. Martin, Game of Thrones, adaptação televisiva por David Benioff e D. B. Weiss, tornou-se com o passar dos tempos um dos maiores fenômenos da tv (se não o maior), com números gigantescos de pessoas assistindo, comentando, teorizando e vivendo a série semana após semana. 

Para uma melhor explanação, irei me ater apenas a série, visto que ainda não li os livros (apesar de já ter começado o livro I).


Os personagens dessa incrível história de Martin estão tão dentro do imaginário da cultura pop atual que houve uma explosão de escolhas de nomes como "Daenerys", "Tyrion" e "Arya" para bebês nos EUA segundo o Huffpost, assim como o gigantesco número em audiência da série adaptada pela HBO todos os domingos. 
Mas diante de tão estrondoso sucesso, qual seria o segredo? As crônicas de Gelo e Fogo, e logicamente a sua versão adaptada pela HBO (que se tornou uma obra à parte, inclusive) conta-nos uma história diferente das comumente exibidas. E isto não se deve apenas ao fato de, corajosamente, levar extrema violência e sexo para um horário nobre de TV, por exemplo, mas em algo mais profundo: os personagens da história de Martin são incrivelmente complexos. 



Em um mundo cada vez mais polarizado, em que opiniões são levantadas como granadas contra outros e onde existe uma tentativa de endossar bons contra os maus, Game of Thrones nos presenteia, ironicamente, em um universo fantástico, com doses violentas e cruas de realidade.

Logo no primeiro episódio da série (assim como os primeiros capítulos do livro), nós somos apresentados a um momento inquietante: Ned Stark, Lorde de Winterfell, homem bom, honrado, ótimo pai e esposo, sentencia e mata, por suas próprias mãos, um homem por ter abandonado seus votos, homem este que fugira na floresta por ter visto o que viria a ser a maior ameaça de toda a narrativa.
O que vemos aqui? O protagonista honrado, apesar de certo em justiça, matando um homem bom, aparentemente, por infringir uma pequena regra. A honra antes da vida. A honra que o fez morrer da mesma maneira. Temos os olhos de Bran ao assistir a execução, perguntamo-nos no porquê as pessoas matam, e no porquê um homem tão bom como Ned Stark estava desse lado da história. 
Estamos diante de Game of Thrones, em um universo em que a morte é a primeira inimiga e a última, e em que as pessoas estão andando em círculos, caindo em suas próprias armadilhas, morrendo a partir de suas próprias escolhas. Ninguém fugiria desse dilema de conviver com o peso dos próprios erros e acertos. Nem, tampouco, Ned Stark. 

Se estivéssemos diante de uma novela, passaríamos agora  do núcleo dos mocinhos, que seriam os Stark(sem contar os outros núcleos de mocinhos como o de Daenerys, por exemplo) para o núcleo dos vilões, Lannisters, mas felizmente, não estamos vendo uma novela.

O que falar de personagens como Jaime Lannister, um ardiloso cavaleiro que nos deixou estarrecidos com sua brutalidade ao empurrar Bran da torre e praticamente iniciar parte do conflito dos Lannister contra Starks, que levou, inclusive à morte do personagem-chave de toda a história, Ned Stark?

Jaime, em uma série ou livro qualquer seria apenas um playboy rico, bonito e de péssimo caráter, mas não em Game of Thrones. 
Antes regicida (matou o rei que jurou proteger), arrogante e maquiavélico, com o tempo, passamos a ser confrontados com um Jaime frágil, inseguro e em eterno limbo. Um homem que depois de todas as suas ações, passa a questionar-se do porquê de tudo e tentar reparar algumas questões, apesar de ainda permanecer com os fantasmas do passado e viver atribulado por ser a sombra de sua irmã.

Não tão diferente, e ainda na mesma família, temos Cersei Lannister, sua irmã e amante. Talvez a personagem mais complexa e bem construída de toda a trama, Cersei é a mulher capaz das maiores atrocidades, cujos olhos brilham de prazer ao ver o sangue de inimigos derramado, ou criaturas frágeis que se colocam em seus caminhos serem brutalmente despedaçadas por seus planos ardilosos. Mas Cersei também é a que cresceu sem a mãe, tendo como função de vida ser vendida a um homem que não amava e que mais tarde a estupraria e espancaria; Cersei é a que cresceu assombrada com as profecias que ouvira quando criança, sobre o terror iminente de ter seus filhos mortos e ser assassinada. 
Cersei é a rainha louca que manda explodir um templo religioso cheio de pessoas inocentes apenas por conter alguns inimigos, ao mesmo tempo que é a mulher que prefere envenenar seu filho para uma morte sem dor a vê-lo sofrer, enquanto com olhos cheios de lágrimas, conta-lhe uma história, ao entender que a batalha estava perdida e ele, provavelmente, seria violentamente assassinado pelos inimigos.

E o que dizer de personagens como Cão de Caça, um brutamontes sem coração, com sangue nos olhos e pronto para aniquilar qualquer pessoa sem nenhum remorso, que de repente vê-se enternecido paternalmente ao salvar Sansa Stark do abuso e cuidar, ao seu jeito, de Arya Stark, protegendo-lhe a vida e infância?

Ainda posso citar Theon Greyjoy, o traidor da casa Stark capaz de promover a ruína da família por sua ambição e orgulho, mas que se vê destruído mentalmente e fisicamente por Ramsay, e preso num dilema existencial que o faz se perguntar constantemente sobre quem é e qual o propósito de sua vida, dando-nos raiva quando trai os Stark e nos tirando lágrimas dos olhos, quando mesmo confuso, salva Sansa e, despedaçado pela vida, decide juntar os cacos de si mesmo para uma nova chance.

E por que não falar da própria Sansa Stark, garota superficial e fútil dos primeiros momentos, que praticamente provocou morte do seu pai, Ned Stark por seus caprichos e escolhas baseadas em puro egoísmo? Essa mesma Sansa é a que, a duras penas, aprende a, sem armas, lanças ou violência, sobreviver aos piores inimigos, persuadir o homem que sempre a manipulou e retomar de forma inteligente o Norte. Entre a arrogância e a humildade, o orgulho e o arrependimento, Sansa é titubeante, insegura, misteriosamente carrega resquícios de seu egoísmo, mas deseja mais que tudo sentir-se em casa, entender-se, de uma vez por todas, como alguém que precisa proteger a família e fazer parte dela.



Dentre todos esses exemplos de personagens complexos, o que na literatura chamamos de redondos, fica-se evidenciado o porquê de tanto sucesso. Claro que ter dragões bem construídos, lindas fotografias, um roteiro que nos presenteia com diálogos fantásticos e um espetáculo de produção ajuda muito, mas o triunfo de Game of Thrones reside na capacidade imperiosa de ser um espelho coerente de todas as nossas próprias contradições.


Por mais que queiramos, nós nunca nos adequaremos aos papéis maniqueístas de filmes de super-heróis. Por mais que tentemos, não cabe em nós o uniforme daquele que se sacrifica pelo bem maior e luta bravamente contra o arqui-rival... O rival é o violento residente da nossa alma, nossa personalidade titubeante e angustiada que dança entre pólos extremos, com ações de bondade convivendo com nossos mais odiosos vícios e baixezas. Nem os que mais se parecem com os heróis, na narrativa, como Jon Snow e Daenerys Targaryen fogem de suas próprias contradições. Jon é o rapaz que cresce sob o estigma do título de bastardo do seu pai, Ned, mas dentre todos os Stark é o que mais se assemelha a ele em justiça, honra e retidão. Jon também é o homem atribulado por escolhas ruins e atitudes louváveis em honra, mas que lhe tiraram a paz pela moral, como condenar a morte um traidor da patrulha, que na verdade era uma criança. 
Daenerys Targaryen é a conquistadora que após passar por momentos de crucial sofrimento, sendo traída pelo próprio irmão, vendida e estuprada por um selvagem, consegue exércitos e poder por conta própria e confiando apenas em si mesma. É a mesma mulher que crucifica todos os lordes, maioria senhores de escravos de Mereen, sem se dar conta que também estavam, entre eles, pessoas inocentes que não participavam do sistema escravocrata. É a mesma mulher que chora por não ter conseguido filhos, mas queima pai e filho por traição. 

Nem os heróis estão à salvo.

Game of Thrones, por mais que queira, em uma análise intermediária da narrativa, retratar um jogo político inspirado na formação da Inglaterra com toques de realismo mágico, faz muito mais: Game of Thrones nos lê e nos revela como esse ser contraditório, contrastante... Humano demais para vilão, humano demais para herói.


quarta-feira, 3 de agosto de 2016


Toda criação artística apresenta uma visão de mundo, isso é evidente.  Há um status quo nas produções quanto à cosmovisão e principalmente quanto à realidade de quem é o ser humano.
Frequentemente em livros, músicas, filmes, novelas e séries o universo é mostrado como um campo de guerra entre o bem e o mal; o conceito de bem é demonstrado por tipos ou estereótipos: o pai de família, o religioso, o oprimido, enquanto o mal é representado por outros tipos: o bandido, o amoral, o opressor. É fácil se identificar com os bonzinhos dos enredos porque ali há o ideal do que queremos ser, ou do que achamos que somos. A maioria de nós é oprimida, é gente de “família”, é religiosa e por sermos assim, queremos um mundo que faça jus às nossas boas ações, um mundo onde o nosso vilão - que é geralmente o nosso oposto – seja punido e aniquilado.
O que é geralmente esquecido é que essa visão maniqueísta é mais farsa do que realidade; é uma ação muito mais digerível sentir-se no direito de separar o joio do trigo porque assim não nos envolvemos emocionalmente com nenhum de nossos “inimigos”; apatia facilita aniquilação. É quase impossível entrar na mentalidade maniqueísta o fato de que possivelmente o bandido que me assaltou hoje mais cedo tem um histórico de abandono, vulnerabilidade social e miséria. Não. Pensar nessa possibilidade me aproximaria desse rapaz e eu, despida do título de vilão não ousaria me aproximar emocionalmente desse rapaz. Tampouco seria possível essa “aproximação” dentro do campo maniqueísta se minhas atitudes condenáveis de pequenas corrupções diárias partissem do mesmo pressuposto que faz o assassino dizimar vidas inocentes. Inadmissível.
Espantoso para quem pensa assim é notar que, talvez, essa visão complexa e inadmissível seja mais próxima da realidade do que a concepção descrita no status quo das produções artísticas. Somos tão vilões quanto as caricaturas desenhadas em filmes de Marvel, mas pensamos não ser justamente porque não nos adequamos às características que fazem um vilão estereotipado.
E é justamente nesse emaranhado humano de emoções, corrupções e crueldade que o universo artístico de Mr Robot mergulha. A história à princípio pode parecer simples: um jovem rapaz chamado Elliot Alderson, com dificuldade em se envolver socialmente, é programador de uma empresa de segurança cibernética durante o dia e à noite hackeia a vida de todas as pessoas que, de alguma forma, tem contato; promovendo com isso pequenas ações de proteção para com as pessoas que se importa e denunciando crimes de cafés que frequenta e até do quase namorado de sua terapeuta. Elliot posteriormente conhece um grupo de hackers chamado Fsociety que tem como objetivo entrar no sistema da maior empresa chamada E-Corp a fim de promover uma revolução econômica levando o sistema mundial a uma distribuição de renda mais justa.
Enredo simples para se ler, mas o enfoque da trama vai mais além: mais do que as conspirações do estado e a denúncia contra o sistema capitalista, o que mais me impressiona nessa produção é construção dos personagens. Elliot não cabe apenas no antissocial curioso e revoltado com o sistema: Elliot é o rapaz que se esconde na mascara do não envolvimento profundo com as pessoas para fugir de sua personalidade perturbada e de seus traumas de infância, assim também como a morte de seu pai cometida indiretamente pelas escolhas criminosas de condições de trabalho dos empregados da E-Corp. Elliot, na sua busca por justiça, também promove ações que facilmente seriam dadas a um vilão. Angela, sua amiga, não é apenas a moça legal que tem a mãe também morta pelo contato com a radiação no trabalho da E-Corp; também é a que dissemina vírus na empresa que trabalha para não prejudicar a si mesma e é a que, em muitos momentos, contradiz a causa pela qual tanto luta. Do outro lado está Tyrel, o executivo da Evil Corp que tem todas as características de vilão, mas que apresenta sintomas de insegurança consigo mesmo, solidão e carência por visibilidade. Notou aonde quero chegar? Todos os personagens nos fazem perceber que eles não estão distantes de nossa realidade e que a linha que divide vilões e mocinhos parece não ser tão larga.
Não apenas no universo das artes, mas também na política e em algumas visões religiosas, há uma tendência em dividir o mundo entre os bonzinhos e os malvados. Vamos entrar no exemplo das ideologias políticas conhecidas como esquerda e direita. Na direita, ou em grande parte de suas diretrizes, acredita-se que se o homem estiver livre das garras do Estado, será, de fato livre economicamente, logo, livre para aproveitar boas condições da vida. Acredita-se também, no conservadorismo político, que conservando a tradição, e apegando-se quase religiosamente a ela, haverá a possibilidade de se livrar das inovações que possam trazer malefícios a ordem de paz; o homem é capaz de tudo isso por sua liberdade, segundo essa visão. Estamos diante de uma meia verdade, que não é todo mentira, mas com certeza não entra no campo da verdade. O que passa despercebido é que por mais livre economicamente que o homem possa ser, seu coração sempre estará tendencioso a burlar o sistema, a corromper-se com a quantidade de dinheiro que adquiriu com seu “próprio” esforço e a explorar o que não conseguiu subir nas escadas da meritocracia. Grande parte da esquerda, por outro lado, acredita que o homem é passivo diante do sistema corrupto e opressor: ele não escolhe o mal, mas as suas condições sociais o levam a situações extremas diante de sua pobreza, e por essa razão é que muitos dos que se envolvem na criminalidade são parte das minorias: pobres e negros. Também acredita que é possível reduzir todos os malefícios e desigualdades a partir de uma revolução econômica e do fim da propriedade privada em um mundo onde todos viverão harmonicamente sem tomar o que é necessário da vida do outro. Utopia e, mais uma vez, meia verdade. Mesmo que houvesse uma revolução onde não houvesse propriedade privada, será mesmo que essa revolução daria conta da fome insaciável de todo ser humano em acumular pra si riquezas? E será que todo criminoso que passou por uma situação de extrema pobreza entrou na vida do crime APENAS por sua situação econômica? (deixo claro aqui que eu concordo com o fato de que o sistema desigual promove a facilidade de pessoas em estado de vulnerabilidade social entrarem mais facilmente na vida criminosa, mas o que quero reforçar é que ninguém é completamente passivo; também há o campo das escolhas que contribuem para a criminalidade).
Nenhum sistema econômico, ao meu ver, dá conta da realidade de quem verdadeiramente somos. Não estamos livres e não somos totalmente passivos diante de um sistema. A bíblia não mostra um homem inteiro como as ideologias tentam pregar, ao contrário, apresenta um homem partido dentro de um mundo também partido. (como na canção "Bom e mau" do Estevão Queiroga no álbum "Diálogo número um" que fiz a resenha aqui ).
O homem, segundo a bíblia, é capaz de coisas grandiosamente belas e boas ao mesmo tempo que tem o mal explodindo dentro de si como um vulcão em constante erupção. O bem que há em nós é fruto da Imago Dei ou Imagem de Deus. É essa substância divina que nos traz a consciência dolorosa de que somos sim iguais ao bandido que muitas pessoas querem morto. É essa substância que nos faz ver Hitler como um ser humano que em muitos momentos da vida promoveu boas ações e apresentava facilidade em se envolver com crianças; é essa substância que faz com que grandes invenções para cura de doenças antes tidas como incuráveis sejam possíveis, que faz com que muitas pessoas carentes sejam assistidas através de ONGs humanitárias... É essa substância que propicia a construção de coisas extremamente belas nos campos da Arte em geral com grandes músicas, grandes filmes, belas escuturas...  
Por outro lado, mesmo possuindo a Imago Dei, a bíblia também nos mostra como vilões sanguinolentos, línguas ferinas, pés apressados para o mal, inimigos de Deus... Vilões. E o mais impressionante: nascemos sob essa condição. O mal não é apenas o que fazemos, o mal é o que somos naturalmente. Somos capazes de criar bombas atômicas e arrasarmos com países inteiros, somos capazes de contribuir para o trabalho escravo, de acumular riquezas e explorar o pobre, de consolidar o racismo e entre tantas outras formas de preconceito e exclusão social.
Como seres completos possuindo duas naturezas opostas, vivemos em um mundo complexo que não é dividido por linhas baseadas em nossos conceitos de bondade e maldade; o mundo não está tão dividido quanto imaginamos.
A bíblia e posteriormente Mr Robot apresentam uma face nossa que reprimimos, que lutamos para não enxergar e nos chamam à consciência dolorosa de quem somos de verdade: maus e bons, vilões e mocinhos, pecado original e Imagem de Deus.