terça-feira, 12 de dezembro de 2017

Como sempre, a música em anos difíceis vem nos salvando. E foram muitos lançamentos internacionais que fizeram valer a pena viver cada minuto de 2017; artistas de vários segmentos, vários discursos e com diversas histórias contadas em álbuns e EP's, sejam abordando temas subjetivos como amor, existência e sofrimento ou até temas sociais como racismo, desigualdade e empoderamento feminino, definitivamente 2017 foi um prato cheio para a música.

obs.: sinceramente, acredito que este foi o ano em que mais escutei músicas em toda a minha vida. Segundo o Spotify, ouvi mais de 27 mil minutos! Uau! Vamos às consequências desse meu ócio hahaha

25. ||| Spector - ||| Spector  


O grupo de adolescentes de Nashville, que já foi citado nesse meu post aqui, lançou este ep autointulado em julho deste ano e apesar de ser o primeiro trabalho da banda, já mostra maturidade e um frescor difícil de se ver em bandas iniciantes, lembrando os tempos áureos dos anos 70 e 80 em músicas pop com guitarras e timbres bem trabalhados. 

24. Slowdive - Slowdive 

A banda, que eu não sabia da existência até este ano, conhecida por seu som shoegaze teve um longo hiato, mas voltou com tudo este ano com canções carregadas de ambiência e timbres de guitarra que garantem uma experiência de imersão em cada canção executada. 

23. This Old Dog - Mac DeMarco 


O queridinho do indie internacional, Mac DeMarco, nos apresenta uma versão simples e bem estruturada de romantismo, com canções que na primeira audição pedem rapidamente bis para os ouvidos, numa versão menos sarcástica e mais apaixonada do canadense. 

22. Bathing Beach - Novo Amor 


A banda de nome em português, conhecida por seu som indie-folk minimalista (com muitas comparações compreensíveis à banda Bon Iver) nos apresenta a mais um EP com 4 canções, das quais o único pecado está na pouca quantidade. Essa é pra ouvir com os olhos fechados e mão no coração! 

21. Ti Amo - Phoenix



Quem me conhece sabe que tenho uma certa queda por músicas tristes e, por esta razão, é até curioso para mim o fato de eu ter gostado tanto de um álbum tão "alegre" quanto Ti Amo da francesa Phoenix. A resposta talvez esteja no fato da minha queda também por sintetizadores anos 80 nesse indie-pop delicioso com referências retrô apresentado pelos franceses. 

20. Painted Ruins - Grizzly Bear


Não conheço a fundo a banda indie Grizzly Bear, e essa foi a minha primeira e até agora única experiência com o grupo, mas garanto que foi uma gentil e alegre descoberta ouvir 11 canções e me viciar na delícia de clipe de Mourning Sound. 

19. Crack-Up - Fleet Foxes


Ouvir Fleet Foxes nunca é uma experiência muito fácil para mim, e o novo álbum da banda de folk e pop-barroco veio confirmar este fato e incrivelmente, como nos melhores álbuns, o aparente desconforto com as músicas foram dando lugar a uma apreciação sensorial incrível, principalmente com músicas como Third of May/Õdaigahara. 


18. Sleep Well Beast - The National



Mesmo eu, particularmente, gostando mais do disco anterior da banda, não posso deixar este grande álbum de fora. Algumas músicas como Guity Party e Carin at the Liquor Store, que são incrivelmente lindas, me obrigaram a colocar Sleep Well Beast como um dos melhores discos internacionais de 2017.

17. Harry Styles - Harry Styles


Sim, este é aquele menino da One Direction que me fez cair da cadeira e deixar de preconceito bobo, como eu expliquei na resenha que escrevi. 
O primeiro disco do inglês é um primor de produção, uma bonita homenagem ao rock'n roll anos 70, com um álbum que não saiu dos meus ouvidos por semanas a fio. 

16. All Things Work Together - Lecrae



Lecrae é um dos grandes nomes do Rap consumido pelo público cristão dentro e fora dos EUA, mas o álbum All Things Work Together, lançado esse ano veio para desestruturar o stablishment da música cristã norte-americana ao apresentar um disco que foge dos padrões ao, por exemplo, abordar temas como a hipocrisia do cristianismo, a supremacia branca, o racismo estrutural em uma acidez crítica impressionante, além de ter convidado o rapper (não cristão, inclusive) Ty Dolla $ign para colaborar em uma canção e utilizar samples de uma música do artista folk-barroco Sufjan Stevens na maravilhosa Can't Stop me Now (Destination). 

15. Mercury & Lightning - John Mark McMillan



Se Lecrae causou lançando seu disco, imagina John Mark McMillan conhecido por ser um dos grandes nomes do movimento worship no mundo e ser um dos maiores líderes de louvor? Enquanto todo o seu público esperava mais um álbum de músicas para serem cantadas nos cultos de domingo, McMillan surpreendeu ao apresentar um álbum sombrio, esteticamente conceitual, com críticas severas à hipocrisia da igreja norte-americana e uma angústia em limbo de dúvidas, que se não soubéssemos a religião do artista, provavelmente questionaríamos se não seriam lamentações de um agnóstico. Tudo isso somado aos clipes lançados do álbum, em especial da canção que dá nome ao disco, Mercury & Lightning, que certamente é uma das melhores obras de 2017. 

14. Tell Me You Love Me - Demi Lovato



Demi Lovato, uma das grandes estrelas mundiais, conhecida por seus trabalhos na Disney Channel e também pelos diversos problemas pessoais que estamparam revistas por todo mundo, finalmente se encontrou musicalmente e isso foi uma grata surpresa para este ano de 2017. Apesar de liricamente não se ter nada muito profundo, é na sonoridade que Tell Me You Love Me acerta em cheio. Se antes víamos uma Demi perdida entre o pop e o rock-teen (como no caso de Kelly Clarkson e Avril Lavigne), agora ela finalmente percebeu que sua voz e personalidade musical combinam perfeitamente com o R&B Pop-R&B em um disco cheio de arranjos sensacionais que misturam instrumentos de sopro (como positivamente visto no registro anterior, Confident) mais sintetizadores típicos dos anos 80 e guitarras de blues num dos melhores álbuns pop do ano. 

13. The Velvet Face - Halfnoise



The Velvet Face, EP de 5 canções foi um dos meus maiores acompanhantes neste ano. O registro do artista Zac Farro, conhecido por ser baterista da Paramore (já falamos dele por aqui) é um prato cheio de referências setentistas em um indie-pop que apresenta elementos de psicodelia e vestígios de dance dos anos 80. Cool!

12. Freudian - Daniel Caesar 



Lembro como hoje da primeira que escutei Daniel Caesar e foi lindo ouvir o primeiro disco, aí me vem 2017 e me presenteia com Freudian, que apesar de não ser melhor que o primeiro, na minha opinião, apresenta canções incríveis como Best Part (em colaboração com a incrível H.E.R) e Get You. 

11. As You Were (deluxe edition) - Liam Gallagher


Pra matar a saudade do Oasis, em clima de nostalgia, Liam Gallagher trouxe um álbum pra 2017 que, com certeza vale a pena ser escutado. São baladas de rock incríveis pra quem quer ouvir e chorar pedindo a reconciliação dos irmãos Gallagher. 

10. Melodrama - Lorde




Apontado por inúmeros sites de respeitos como o melhor álbum de 2017 e tendo uma invejável nota 91 no Metacritic além do selo Best New Music do rigoroso site de crítica musical Pitchfork, Melodrama chegou na minha vida como uma boa surpresa. Eu não tinha ouvido o disco anterior e meu primeiro contato com Lorde se deu com este aclamado álbum com produção precisa do novo queridinho do pop (ou indie-pop) Jack Antonoff, sendo todo construído a partir do conceito da experiência de uma pessoa pré, durante e pós festa, revelando os maiores anseios e angústias da geração millenials e rendendo canções incríveis como The Louvre. 
Apesar de ter gostado muito do álbum, confesso que o primeiro continua sendo meu preferido. 


9. A deeper Understanding - The War on Drugs 



Eu sempre ouvi falar muito de The War on Drugs, mas nunca tinha parado para escutar e entender o porquê de tanto ovacionamento (experiências que este ano também passei com Grizzly Bear e Slowdive). Escutei as 10 canções de A Deeper Understanding e entendi completamente, me rendi aos encantos da banda americana e me comprometi a ouvir toda a discografia.

8. Turn Out the Lights - Julien Baker





Se você quer sofrimento, veio para o lugar certo. São mais de 10 canções interpretadas pela cantora Julien Baker de Memphis, TN nos EUA nos apresentando o mais profundo que existe em um artista quando decide vomitar suas dores e mostrar toda a sua vulnerabilidade. Só escute se não estiver passando por maus bocados. 

7. H.E.R - H.E.R



Este é o primeiro álbum da jovem cantora de R&B que atende pelo nome de H.E.R. Canções incríveis mostrando o que há de melhor no new R&B e o porquê dela ser quase um ser onipresente nas novas produções do gênero nos EUA. Vale muito a pena!

6. Ctrl - SZA



Assim como H.E.R, SZA é novata e desponta com seu primeiro disco solo já garantindo lugar nos sites especializados como um dos melhores álbuns do ano. No começo eu escutei para entender o porquê de tanta reverência e após algumas tentativas, entendi perfeitamente: SZA não tem medo de expor o que sente, não tem medo de ousar no que seria o alternative-R&B e como resultado foi um dos discos mais escutados por mim neste ano. 

5. DAMN. -  Kendrick Lamar



O público, a crítica e todas as pessoas que apreciam boa música reverenciam Kendrick como uma das maiores vozes e representantes do Rap mundial nos nossos dias. E não é pra menos. No álbum mais elogiado do ano, estampando as principais revistas e sites especializados em crítica como o melhor álbum de 2017, DAMN. é cru, aponta as dúvidas e angústias, critica o stablishment do próprio sistema de música do rap e alça um dos momentos mais criativos em arranjos de sua carreira. Um dos motivos de estar na minha lista pessoal em uma música: Pride. SIT DOWN! BE HUMBLE! 

4. After Laughter - Paramore



E por falar em Zac Farro, a banda Paramore, depois de inúmeros problemas internos e um quase fim (como relatado na resenha que escrevi sobre o After Laughter) renasceu das cinzas rompendo completamente com o pop-punk que fez com que se tornassem conhecidos mundialmente e mergulhou nas dimensões da pop music e new-wave anos 80 contrastando com letras pesadas sobre depressão, insegurança e medos que são típicos dos jovens adultos e representam quase toda a geração Millenials. 
Obs.: segundo o spotify, Paramore foi a banda que eu mais escutei em 2017. Não é pra menos né? A menina emo de 2009 em mim ainda não morreu hahah.

3. Process - Sampha 



Conhecido por suas contribuições com artistas de grande renome como Solange e Drake, Sampha nos presenteia com um dos melhores discos do ano, provando toda a sua versatilidade em um registro que garante lágrimas por sua delicadeza e vulnerabilidade, assim também como rende palmas pela grande criatividade num gênero que é definido pela crítica como neo-soul. 

2. Aromanticism - Moses Sumney 



Moses Sumney recentemente escreveu um artigo na Pitchfork criticando as revistas e sites especializados em música por classificar artistas negros apenas na caixa do R&B não dando o devido valor aos diversos pretos artistas que criam novas fórmulas, mas acabam não alçando reconhecimento pelo feito. E é em cima da originalidade que seu mais recente trabalho Aromanticism é construído. Não há caixas que comportem a criatividade de Sumney, suas referências vão do jazz, pop-barroco até o minimalismo em uma explosão sensível de canções que definitivamente tocaram meu coração este ano. 

1. Truth is a Beautiful Thing - London Grammar



London Grammar não apareceu nas maiorias das listas de melhores álbuns do ano, e sinceramente isso não tem tanta importância, porque no meu coração eles definitivamente ocuparam o primeiro lugar em 2017. O registro de Truth is a Beautiful Thing com quase duas horas de duração (escrevi sobre o disco aqui) é um dos álbuns mais bonitos que já ouvi na vida. Musicalmente, poucas coisas me deram tanto prazer quanto ouvir, por exemplo, os instrumentais aliados à incrível e poderosa voz de Hannah Reid na INCRÍVEL Hell to the Liars. 


Estes foram os meus companheiros (internacionais) do ano. Quais foram os seus? Quais músicas te salvaram este ano? 

Obs.: fiz uma playlist com todas as melhores músicas dos álbuns citados acima mais alguns nacionais que serão pra o próximo post de melhores álbuns nacionais do ano. Dá uma ouvida aí! 


segunda-feira, 27 de novembro de 2017



A história parece clichê: um escritor frustrado, em crise de meia-idade, casado com uma mulher por 25 anos com a qual tem 4 filhos, de repente se vê envolvido, numa viagem de família ao interior, com uma garçonete, também casada.

Seria realmente uma típica novela das nove se não fosse pela genialidade criativa na forma como a série é escrita, dirigida e no quanto que a narrativa nos oferece mais do que estereótipos: são dores intensamente humanas, são histórias visceralmente humanas.
A série segue a estrutura de contar a história por duas perspectivas de um mesmo acontecimento por episódio e este o grande diferencial: não há repetição de cenas, de acordo com a visão do personagem alguns detalhes mudam, seja na roupa, seja nos gestos, seja na impressão causada, seja no toque... É a memória, com toda a sua fragilidade, fugacidade e traços de nossa visão de mundo, que desenha a linha que nos conduz à história.
É a memória que constrói não apenas uma cena, mas a visão daquele personagem sobre si mesmo e sobre o outro.
Por essa memória descobrimos Noah Solloway, um homem bem casado que ama Helen, sua esposa, e os quatro filhos, mas se vê num limbo existencial quando não atinge suas próprias expectativas como escritor e como pessoa e quando não atinge as expectativas da família de Helen, rica e controladora.  Noah é honesto, fiel e entende que casou com o primeiro amor da sua vida, mas há vestígios em si que carregam um desejo incontrolável por algo a mais e é neste momento em que Alison aparece.
Pela memória de Noah, Alison é descrita como uma mulher sedutora, que faz do mistério, seu charme, livre e encantadora, e que não sente nenhum remorso ao buscar trair seu marido... Nas partes em que estão juntos, ela é a provocadora, ele é o bom moço que "resiste' à tentação.


Mas é aí, justamente aí que The Affair alcança outros patamares. A visão de Noah não corresponde exatamente à realidade e ao mesmo tempo é a realidade. Não estamos falando de uma série que apresenta uma verdade objetiva, mas de várias verdades sendo construídas pela memória, pela visão de mundo dos personagens e pelo que parece ser mais conveniente a cada um omitir, esconder, distorcer...  Nenhuma perspectiva é real, e ao mesmo tempo todas são.
Ao conhecermos Alison de sua própria perspectiva, entendemos que ela é uma mulher que carrega dentro do peito a dor de ter perdido o filho em um casamento que parece não estar mais se sustentando, já que ambos estão devastados pela culpa, pela saudade e pela sensação de luto. Alison é insegura, não tão confiante e não consegue ver sentido na sua vida em Montauk, em todo modo de viver praiano, no seu emprego, na sua casa, lugar de recordações dolorosas e nos olhos, corpo e tatuagem do marido, Cole, por tudo lembrar seu pequeno filho Gabriel, que morrera num afogamento. A atuação de Ruth Wilson interpretando Alison é uma das melhores coisas já vistas e nos faz sentir, como numa pontada de faca no coração, cada fio de dor que envolve Alison até quando não consegue pronunciar palavras por hesitação.


O affair entre Alison e Noah, refúgio para suas cansadas vidas é um retrato de algo mais profundo que acontece nos dois personagens: ambos anseiam por algo a mais e pouco a pouco vão tomando escolhas para saciar a sede do sentido que, como um furacão, destrói violentamente cada pessoa ao redor de suas vidas e até aquilo que pensavam ser.
Com o passar do tempo percebemos que na felicidade do amor proibido dos protagonistas, máscaras caem: o desejo, a mentira, a traição, a manipulação transformam-se em instrumentos para obter essa felicidade que, na visão dos dois, não pode mais ser sufocada pelos parâmetros construídos até aqui e que tinham causado tanto sofrimento a ambos.
Por esta razão, Helen e seus quatro filhos se veem em uma estrada intensa de sofrimento, de sensação de perda, de mágoa reprimida entre os filhos com os pais, de verdades sobre si mesma refletidas na explosão imoral do marido. Helen vê que não o controla mais e que todas as suas expectativas de felicidade e amor, em um casamento que começou como conto de fadas, não era aquilo que pensava. Pouco a pouco a frustração, a sensação de não ser suficiente, a insegurança vão tomando conta de uma mulher que antes era admirada por sua força e autocontrole. Seus filhos, principalmente os mais velhos, Martin e Whitney vão cada dia mais tomando decisões que refletem suas respectivas mágoas contra Noah em uma violência de silêncios e insensatez como resposta ao casamento desmoronado dos pais.



O rastro de destruição causado pelo affair também revira a vida já bagunçada o suficiente de Cole Lockhart,  um homem aparentemente seguro, profundamente introspectivo, que carrega nos olhos a dor da perda de seu filho, mas sublima a saudade com uma aparente vontade de seguir em frente, o que é motivo de mágoa em sua esposa, Alison: a dor não é falada, o desconforto, o luto não são assuntos e sempre parece haver entre os dois um abismo de entendimento, de cumplicidade que desagua em um casamento de desconhecidos solitários após a perda do filho. Cole ama Alison de forma quase espiritual, mas os dois nunca conseguem romper com a barreira que o luto causou em suas vidas. Como resultado, o vemos cada vez mais conformado com a "maldição" de sua família, de seu nome, de sua vida, cada vez mais entregue ao seu próprio silêncio, onde só os olhos conseguem dizer de verdade o que sente. 




E mais uma vez, a memória faz o seu papel fundamental na estrutura narrativa, enquanto, mais para frente, precisamente na segunda temporada, vemos a perspectiva de Alison sobre Cole: ela o vê como alguém duro, frio e impessoal (às vezes até assustador), na perspectiva de Cole ele se enxerga cada vez mais afundado na tristeza por ter perdido algo que ele pensava ser para sempre. Alison enxerga-se insegura, enquanto vê Noah um homem confiante, charmoso e capaz de lhe dar aquilo que procura dentro dela; Helen vê os defeitos de Noah, mas o perdoa insistentemente, em um amor que rasteja aos pés; Noah enxerga em Helen uma mulher presunçosa, e talvez por seu peso de consciência, omite todas as suas qualidades para sentir-se bem. 


E é nesse ínterim que apesar de facilmente odiado por todos que assistem, Noah se apresenta como o personagem, juntamente com Alison, mais complexo da narrativa: o afã de ser grande, de conquistar tudo, de superar a frustração de 20 anos adequando-se ao que os outros queriam dele, de afastar-se em mágoa do pai e ao mesmo tempo transformar-se no que mais detestava, que Noah nos presenteia gradualmente com sua derrocada; da glória da ilusão de juventude com Alison, da glória do ego amaciado por elogios e pelo amor de uma mulher mais jovem até a plena consciência de toda a dor que causou naqueles que mais amou na vida e do quanto esses caminhos traçados não oferecem opção de volta. 





O poder da memória na narrativa é mais do que a lembrança pura e simplesmente; é se utilizando da fragmentação dessa memória que The Affair entrega um dos melhores dramas da atualidade, porque é na fragmentação que, assim como o crítico literário Antônio Cândido diz, nós somos capazes de criar ficções. E se tudo é ficção o que é verdade? E se o romance escrito por Noah baseado em seu caso com Alison é, como incansavelmente é defendido por ele, uma ficção, o que seria a realidade de fato?

Não existe a verdade objetiva nos nossos trajetos aqui na vida; não existem os bons moços e nem os maus, na aparente história clichê de novela, The Affair escancara um drama cru, honesto e humano sobre nossa condição, nosso ego, nossas escolhas como efeito borboleta e nossa busca desenfreada pelo sentido de existir.

quarta-feira, 20 de setembro de 2017


Garimpar novos sons tem sido e é para mim uma das atividades ociosas mais encantadoras e prazerosas, diria até que necessária para ventilar a alma das inúmeras notícias ruins que vêm acometendo nosso país nos últimos dias. E com essa missão de trazer novos ventos para você também, leitor, eu preparei uma lista singela de descobertas que me acompanharam nesses dias. Confere aí! 


1- Hundred Waters


A banda americana de música alternativa tem como característica principal a boa harmonia entre o eletrônico e o orgânico, trazendo como selo a mão do famoso produtor Skrillex. Ouvi apenas um álbum do grupo, mas ouso dizer que já é suficiente pra provar a qualidade musical dos amigos da Flórida.





Pra quem gosta de: London Grammar, Feist e The XX

Músicas que Thai indica: Murmurs; Cavity.



2- BANNERS 



Banners é o projeto musical do inglês de Liverpool, Michael Joseph Nelson, que é conhecido por seu som repleto de elementos pop com estruturas conhecidas da música indie rock. Banners até agora possui um EP e alguns singles.




Pra quem gosta de: Coldplay, Seafret, Bastille
Músicas que Thai indica: Start a Riot; Ghosts e Shine a light.



  3- Berhana 


 Não tem esses dias que você encontra músicas e bandas incríveis DO NADA? Foi exatamente assim que meu encontro com Berhana aconteceu. Não sei nada sobre o artista e provavelmente não tem muita coisa na internet contando os detalhes da vida do músico, mas, mesmo assim, o seu EP de estreia, BERHANA, é um primor pra quem curte um bom R&B, com toques de soul e alternativo-R&B. 






Pra quem gosta de: Chance the Rapper; Drake, Anderson Paak e Frank Ocean.

Músicas que Thai indica: Janet e 80's.



4- Alpargatos


A partir de um link que falava sobre incríveis álbuns visuais desconhecidos eu ouvi e vi a obra dos gaúchos com o EP visual "Essa cidade cheia de heróis", contendo apenas duas músicas incrivelmente interligadas e com uma produção linda e cheia de encantos, que aborda a relação da cidade como influência, fuga e solidão. 




Pra quem gosta de: Maglore, Apanhador Só, Selvagens à procura da Lei e Vanguart.


5- Angelo de Augustine


Mais uma prova de que às vezes as músicas nos encontram e não o contrário. Angelo de Augustine é um músico californiano com ares de hippie e clipes que fazem a gente pensar estar nos anos 70, década da expansão do folk da Beat Generation, que, curiosamente, é o tipo de som intimista e quase lo-fi que encontramos em suas canções. O músico lançou seu mais novo disco recentemente "Swim Inside the Moon (que estou ouvindo neste exato momento). Vale a pena se arrepiar com o minimalismo encantador do americano.


 


Pra quem gosta de: 
Elliot Smith e Sufjan Stevens.


Músicas que Thai indica: Crazy, Stoned and Gone e Truly Gone.


  6-  III Spector 





Formada por adolescentes e jovens da cidade berço da música country comercial, Nashville, III Spector é uma banda que está começando seus trabalhos agora e lançou seu primeiro EP autointitulado em junho deste ano. Com uma música doce caracterizada pela voz da vocalista e pelos efeitos de rock pop/rock 80's, a banda promete ainda dar muito o que falar.






Pra quem gosta de: 
The Smiths, Wilco e Belle & Sebastian


Músicas que Thai indica: Paco; Honey.




7- Now, Now



Essa talvez seja a banda mais recente que encontrei, mas acredito que eles já sejam bem conhecidos por aqui porque lá nos EUA estão causando um sucesso enorme.
Hoje é dia 15 de setembro e exatamente no dia 14 perto das 21:00 eu ouvi o mais recente single do duo americano de indie-rock  Now, Now, chamado "SGL". Depois de ter me apaixonado perdidamente por toda a dinâmica, som de bateria, voz e melodia dessa canção, decidi ouvir o disco completo: "Threads" de 2012. Pronto. A paixão me pegou, tentei escapar, não consegui. (inclusive, hoje mesmo eles lançaram um novo single chamado "Yours", que também vale a pena ouvir). 
Pretendo ouvir mais do duo, mas por enquanto se apaixone também por eles com essa live incrível.






Pra quem gosta de: Daughter, The XX, Tegan & Sara e Copeland
Músicas que Thai indica: SGL, Prehistoric e Thread.





Essas foram algumas de minhas descobertas, ainda tenho algumas para compartilhar, mas deixarei para uma outra hora. Você gostou das indicações? Já conhece algumas? Diga aí o que você descobriu também!

sexta-feira, 15 de setembro de 2017

ATENÇÃO: CONTÊM SPOILERS!




Baseado na série de livros "As crônicas de gelo e fogo" de George R.R. Martin, Game of Thrones, adaptação televisiva por David Benioff e D. B. Weiss, tornou-se com o passar dos tempos um dos maiores fenômenos da tv (se não o maior), com números gigantescos de pessoas assistindo, comentando, teorizando e vivendo a série semana após semana. 

Para uma melhor explanação, irei me ater apenas a série, visto que ainda não li os livros (apesar de já ter começado o livro I).


Os personagens dessa incrível história de Martin estão tão dentro do imaginário da cultura pop atual que houve uma explosão de escolhas de nomes como "Daenerys", "Tyrion" e "Arya" para bebês nos EUA segundo o Huffpost, assim como o gigantesco número em audiência da série adaptada pela HBO todos os domingos. 
Mas diante de tão estrondoso sucesso, qual seria o segredo? As crônicas de Gelo e Fogo, e logicamente a sua versão adaptada pela HBO (que se tornou uma obra à parte, inclusive) conta-nos uma história diferente das comumente exibidas. E isto não se deve apenas ao fato de, corajosamente, levar extrema violência e sexo para um horário nobre de TV, por exemplo, mas em algo mais profundo: os personagens da história de Martin são incrivelmente complexos. 



Em um mundo cada vez mais polarizado, em que opiniões são levantadas como granadas contra outros e onde existe uma tentativa de endossar bons contra os maus, Game of Thrones nos presenteia, ironicamente, em um universo fantástico, com doses violentas e cruas de realidade.

Logo no primeiro episódio da série (assim como os primeiros capítulos do livro), nós somos apresentados a um momento inquietante: Ned Stark, Lorde de Winterfell, homem bom, honrado, ótimo pai e esposo, sentencia e mata, por suas próprias mãos, um homem por ter abandonado seus votos, homem este que fugira na floresta por ter visto o que viria a ser a maior ameaça de toda a narrativa.
O que vemos aqui? O protagonista honrado, apesar de certo em justiça, matando um homem bom, aparentemente, por infringir uma pequena regra. A honra antes da vida. A honra que o fez morrer da mesma maneira. Temos os olhos de Bran ao assistir a execução, perguntamo-nos no porquê as pessoas matam, e no porquê um homem tão bom como Ned Stark estava desse lado da história. 
Estamos diante de Game of Thrones, em um universo em que a morte é a primeira inimiga e a última, e em que as pessoas estão andando em círculos, caindo em suas próprias armadilhas, morrendo a partir de suas próprias escolhas. Ninguém fugiria desse dilema de conviver com o peso dos próprios erros e acertos. Nem, tampouco, Ned Stark. 

Se estivéssemos diante de uma novela, passaríamos agora  do núcleo dos mocinhos, que seriam os Stark(sem contar os outros núcleos de mocinhos como o de Daenerys, por exemplo) para o núcleo dos vilões, Lannisters, mas felizmente, não estamos vendo uma novela.

O que falar de personagens como Jaime Lannister, um ardiloso cavaleiro que nos deixou estarrecidos com sua brutalidade ao empurrar Bran da torre e praticamente iniciar parte do conflito dos Lannister contra Starks, que levou, inclusive à morte do personagem-chave de toda a história, Ned Stark?

Jaime, em uma série ou livro qualquer seria apenas um playboy rico, bonito e de péssimo caráter, mas não em Game of Thrones. 
Antes regicida (matou o rei que jurou proteger), arrogante e maquiavélico, com o tempo, passamos a ser confrontados com um Jaime frágil, inseguro e em eterno limbo. Um homem que depois de todas as suas ações, passa a questionar-se do porquê de tudo e tentar reparar algumas questões, apesar de ainda permanecer com os fantasmas do passado e viver atribulado por ser a sombra de sua irmã.

Não tão diferente, e ainda na mesma família, temos Cersei Lannister, sua irmã e amante. Talvez a personagem mais complexa e bem construída de toda a trama, Cersei é a mulher capaz das maiores atrocidades, cujos olhos brilham de prazer ao ver o sangue de inimigos derramado, ou criaturas frágeis que se colocam em seus caminhos serem brutalmente despedaçadas por seus planos ardilosos. Mas Cersei também é a que cresceu sem a mãe, tendo como função de vida ser vendida a um homem que não amava e que mais tarde a estupraria e espancaria; Cersei é a que cresceu assombrada com as profecias que ouvira quando criança, sobre o terror iminente de ter seus filhos mortos e ser assassinada. 
Cersei é a rainha louca que manda explodir um templo religioso cheio de pessoas inocentes apenas por conter alguns inimigos, ao mesmo tempo que é a mulher que prefere envenenar seu filho para uma morte sem dor a vê-lo sofrer, enquanto com olhos cheios de lágrimas, conta-lhe uma história, ao entender que a batalha estava perdida e ele, provavelmente, seria violentamente assassinado pelos inimigos.

E o que dizer de personagens como Cão de Caça, um brutamontes sem coração, com sangue nos olhos e pronto para aniquilar qualquer pessoa sem nenhum remorso, que de repente vê-se enternecido paternalmente ao salvar Sansa Stark do abuso e cuidar, ao seu jeito, de Arya Stark, protegendo-lhe a vida e infância?

Ainda posso citar Theon Greyjoy, o traidor da casa Stark capaz de promover a ruína da família por sua ambição e orgulho, mas que se vê destruído mentalmente e fisicamente por Ramsay, e preso num dilema existencial que o faz se perguntar constantemente sobre quem é e qual o propósito de sua vida, dando-nos raiva quando trai os Stark e nos tirando lágrimas dos olhos, quando mesmo confuso, salva Sansa e, despedaçado pela vida, decide juntar os cacos de si mesmo para uma nova chance.

E por que não falar da própria Sansa Stark, garota superficial e fútil dos primeiros momentos, que praticamente provocou morte do seu pai, Ned Stark por seus caprichos e escolhas baseadas em puro egoísmo? Essa mesma Sansa é a que, a duras penas, aprende a, sem armas, lanças ou violência, sobreviver aos piores inimigos, persuadir o homem que sempre a manipulou e retomar de forma inteligente o Norte. Entre a arrogância e a humildade, o orgulho e o arrependimento, Sansa é titubeante, insegura, misteriosamente carrega resquícios de seu egoísmo, mas deseja mais que tudo sentir-se em casa, entender-se, de uma vez por todas, como alguém que precisa proteger a família e fazer parte dela.



Dentre todos esses exemplos de personagens complexos, o que na literatura chamamos de redondos, fica-se evidenciado o porquê de tanto sucesso. Claro que ter dragões bem construídos, lindas fotografias, um roteiro que nos presenteia com diálogos fantásticos e um espetáculo de produção ajuda muito, mas o triunfo de Game of Thrones reside na capacidade imperiosa de ser um espelho coerente de todas as nossas próprias contradições.


Por mais que queiramos, nós nunca nos adequaremos aos papéis maniqueístas de filmes de super-heróis. Por mais que tentemos, não cabe em nós o uniforme daquele que se sacrifica pelo bem maior e luta bravamente contra o arqui-rival... O rival é o violento residente da nossa alma, nossa personalidade titubeante e angustiada que dança entre pólos extremos, com ações de bondade convivendo com nossos mais odiosos vícios e baixezas. Nem os que mais se parecem com os heróis, na narrativa, como Jon Snow e Daenerys Targaryen fogem de suas próprias contradições. Jon é o rapaz que cresce sob o estigma do título de bastardo do seu pai, Ned, mas dentre todos os Stark é o que mais se assemelha a ele em justiça, honra e retidão. Jon também é o homem atribulado por escolhas ruins e atitudes louváveis em honra, mas que lhe tiraram a paz pela moral, como condenar a morte um traidor da patrulha, que na verdade era uma criança. 
Daenerys Targaryen é a conquistadora que após passar por momentos de crucial sofrimento, sendo traída pelo próprio irmão, vendida e estuprada por um selvagem, consegue exércitos e poder por conta própria e confiando apenas em si mesma. É a mesma mulher que crucifica todos os lordes, maioria senhores de escravos de Mereen, sem se dar conta que também estavam, entre eles, pessoas inocentes que não participavam do sistema escravocrata. É a mesma mulher que chora por não ter conseguido filhos, mas queima pai e filho por traição. 

Nem os heróis estão à salvo.

Game of Thrones, por mais que queira, em uma análise intermediária da narrativa, retratar um jogo político inspirado na formação da Inglaterra com toques de realismo mágico, faz muito mais: Game of Thrones nos lê e nos revela como esse ser contraditório, contrastante... Humano demais para vilão, humano demais para herói.